Vida e morte do facebook

logo facebook com cadeado

Olá pessoal. Sacudindo a poeira para escrever um texto que estava rascunhado já havia algum tempo, mas nunca conseguia terminar. Aproveito o momento em que cheguei no limite com o facebook para explicar pra vocês um pouco do que está acontecendo.

Não há dúvidas de que o comportamento online no Brasil é dos mais intensos do mundo. O brasileiro em geral adora a Internet e bate recordes de tempo conectado, principalmente nas famosas redes sociais. Para o país das telenovelas, é ainda mais surpreendente perceber que já passamos mais tempo na Internet que na televisão. Os dados indicam que estamos cada vez mais tempo vendo uns aos outros, e como você já deve ter percebido por aí, algumas pessoas têm mais necessidades de ser vistas que outras, e acabam trocando sua privacidade por cinco minutos de fama.

Conheço muita gente que passa o dia tentando aumentar o número de seguidores no twitter e facebook, se perdendo em gráficos e análises de conteúdo e comportamento. Afinal, existem dois fenômenos que são muito naturais no mundo moderno:

  1. Com a implementação das ferramentas de monetização, todos (sim, eu disse TODOS) podem ganhar algum dinheiro com a Internet. Preste atenção na palavra algum.
  2. Quem não gostaria de ganhar dinheiro pra “ficar na Internet”? Afinal você já faz isso mesmo, não é verdade?

Aí entra o ponto em que todos desejam ser o próximo Jovem Nerd ou ainda mais ousado é desejar ser o Não Salvo, já que esse último não faz nada mesmo: fica apenas colocando conteúdo que enviam pra ele. Dá-lhe então blogues, facebook’s, twitter’s, até mesmo Spam pros amigos tá valendo com o objetivo de “ficar famoso” e passar a “viver de Internet”.

Obviamente a coisa não é tão simples assim e conheço pelo menos uma dezena de pessoas que sofrem com algumas frustrações por não serem capazes de atingir o tão sonhado número de seguidores/curtidores/leitores que os permitiria ficar “independente” pra sempre. A ferramenta ou estrada para o sucesso é a mesma: monetização.

Essa palavra que parece um pouco feia na verdade é muito simples: imagina que o um amigo está querendo vender um carro e te oferece pra andar com um cartaz grudado nas costas com o anúncio do carro e o telefone dele. Por que você faria isso? Dinheiro, claro! Ele te prometeu uma grana SE ele vender o carro QUANDO ele receber o dinheiro. Como estamos cada vez mais conectados e a Internet é muito dispersa, fica muito difícil para as empresas que precisam de publicidade atrair a sua atenção. Afinal, basta um clique, um Alt+Tab, qualquer coisa, e você não vê aquele anúncio. A saída que eles encontraram é chegar até você pelos seus amigos.

Agora vejamos como a coisa funciona na prática. Quero fazer uma página sobre, digamos, coisas de Brasília. Crio um tal de Portal dos Calangos e chamo meus amigos pra escrever coisas sobre Brasília, com o objetivo de atrair leitores daquela cidade. O Portal logo vira um sucesso e chegamos aos milhares, quiçá milhões de leitores, e passa a ter gente que não vive sem dar uma olhadinha no que estamos escrevendo todos os dias. O que acontece então? As empresas, que não conseguem mais te atingir porque você vê cada vez menos televisão e não tem carro pra ficar ouvindo rádio, decidem anunciar no Portal dos Calangos fazendo uma mega campanha.

Pois bem, nosso Portal é capaz de atingir, digamos, 10.000 pessoas. Ainda que pareça bastante, o nosso amigo Ibope diz que anunciar no Balanço Geral da Record atinge 300.000 pessoas. Sabendo disso eles podem cobrar pela publicidade um preço bem maior do que a gente, e enquanto cada dez segundos lá custa uns R$ 20.000,00 anunciar aqui não custaria nem R$ 200,00. Isso é claro considerando que tivéssemos a audiência de 10.000 pessoas. Em Português claro: trabalhamos o mês inteiro e ganhamos R$ 200,00 pra dividir entre sete colunistas. Paga as contas?

O nosso amigo facebook no entanto atingiu recentemente o total de 47 milhões de visitantes no Brasil, que passam horas e horas conectados e visualizando os anúncios que a plataforma oferece. Quanto eles podem cobrar por isso? É nesse momento que eu gostaria de lhe propor uma pergunta: qual o conteúdo que o facebook gera? Quem está ganhando dinheiro com o que você publica por lá? Ok, mas você pode achar que o conteúdo que você publica nem é tão interessante assim e que eles podem levar um dinheiro com suas fotos e vídeos, mas não é só você que publica por lá. Foi o que percebeu recentemente a Rede Globo de televisão.

Veja, ao colocar o conteúdo da sua empresa no facebook, está fornecendo subsídios para que ele lucre com o material que você produziu. A Globo percebeu o óbvio: trata-se de uma empresa de mídia também, em muitos aspectos concorrente, e mesmo que esteja divulgando seus programas através da rede está vendo uma grande quantidade de dinheiro se esvair pelos seus dedos e indo parar na mão do concorrente. Imagine a audiência de uma novela das 20h00 e o que isso não gera de dinheiro? Por que dividir isso com o titio Mark? Eu também não vejo sentido.

E aí entra o ponto que acredito ter sido a sentença de morte do facebook. Cada vez mais eles tentam selecionar o que passa na sua timeline, com a desculpa de que estão te oferecendo um conteúdo mais próximo do que você deseja. Ora, mas como ele vai saber o que eu desejo se ele não me deixa escolher? Por que eles estão fazendo isso? À medida que os acessos em sua plataforma crescem, as empresas se tornam mais e mais dependentes dele como plataforma de mídia. Aí eles criaram uma interface para te extorquir dinheiro perguntando se você não quer “Impulsionar a publicação”, ou seja, cobrando para mostrar aos usuários aquele conteúdo que eles pediram pra receber de você ao curtir sua página. Simplesmente ridículo.

O que o titio Mark ainda não entendeu é que não adianta jogar contra as pessoas que são responsáveis pelo seu sucesso. Quase todos os produtores de conteúdo relevante estão pulando fora do facebook, e poderia enumerar dezenas de razões, mas vou citar apenas algumas:

  • Tentativa de extorsão dos donos de página ao impedir que o conteúdo chegue diretamente pra quem curte a página;
  • Mudanças frequentes na política de privacidade vendendo suas informações de forma cada vez mais irrestrita;
  • Mudanças frequentes demais na interface.

Se você acha que não pode piorar, tente desenvolver um jogo ou integrar uma aplicação com eles. Não vou nem comentar, apenas deixar o link:

http://www.bogost.com/blog/oauth_of_fealty.shtml

O que eles me parecem não ser capazes de perceber é que a maior riqueza de uma rede social é o conteúdo inserido pelo usuário e o ecossistema de aplicativos ao seu redor. Ao ignorar esses fatores o facebook assina sua sentença de morte, sentado em cima de seu gigantismo, do ego de seu dono e da incapacidade de criar um modelo de negócios que seja menos nocivo ao usuário. Ou seja: a empresa já está falida.

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