A compra dos caças e o desenvolvimento da tecnologia nacional

Foto do Grippen NG

Antes de começar a expor minhas opiniões a respeito da compra dos caças suecos, conhecido como Projeto FX-2, gostaria de convidar a todos para voltar à década de 50. O país: Estados Unidos da América. O contexto: final da segunda guerra mundial.

O ensino de ciência nas escolas

Quando visualizaram o espólio do que haviam conquistado na Alemanha, os países aliados perceberam o óbvio: estavam muito atrás tecnologicamente daquele país. Apesar de ter conseguido produzir a bomba atômica no Projeto Manhattan, que foi feito basicamente por judeus, os governantes perceberam que precisavam formar seus próprios cientistas.

No início da década de 50 do século passado, nos EUA, os integrantes do N.S.F. (National Science Foundation) começaram a perceber que o ensino de ciências aos jovens americanos mostrava-se deficitário: os estudantes terminavam sua formação inicial com pouco, ou quase nenhum, conhecimento específico em matemática, física, química e biologia.

Foi daí que surgiu o PSSC, ou Physical Science Study Commitee, que tinha um único objetivo: incentivar o ensino de Física, Química, Matemática e Biologia nas escolas. O esforço do Projeto Manhattan já tinha representado um grande avanço na ciência, pois graças aos estudos derivados dali temos tecnologias como raios X, radares e até mesmo computadores (vejam vocês). Mas eles entenderam que era preciso criar um fluxo de produção científica e inovação no país, que para dar certo deveria começar na educação básica.

Pois bem, o PSSC começou a trabalhar e em 1956 criou a NASA, agência espacial norte-americana, que apenas 13 anos depois conseguiria mandar o homem à lua. No meio do processo também criou e formou a mais eficiente estrutura educacional do mundo, que apesar de não ser considerada a melhor, sem dúvidas foi capaz de produzir a maior economia. Já as universidades, fonte de pesquisa e desenvolvimento principal, são disparadas as melhores do mundo. Tudo isso tinha como pano de fundo mandar uma espaçonave à lua.

Ensino de ciência no Brasil

Agora voltemos à terra de Cabral e à realidade de nossas escolas. Já disse antes que tive a experiência de estudar praticamente todos os anos da minha vida escolar em escolas públicas, onde aprendi muitas coisas importantes, mas tive uma grande deficiência em outras. Dentre as coisas que aprendi uma das primeiras foi que teria greve todos anos (sarcasmo), e dentre as que deixei de aprender a mais importante foi Física. Dos três anos do Segundo Grau, que hoje acredito se chamar Ensino Médio, tivev apenas 6 meses de Física somados os três anos. Não, não aprendi praticamente nada de Física na escola.

Qual foi o resultado disso? Considero-me sortudo porque meu pai pôde me pagar um bom cursinho com foco em exatas onde melhorei um pouco minhas deficiências e permitiu que eu passasse na primeira turma do PAS para Engenharia Elétrica na UnB. Me lembro que, dos 40 aprovados para o curso, apenas eu e mais 3 éramos provenientes de escolas públicas, o que já deveria ser um indicativo importante. Resultado de minha deficiência: 4 (sim, eu disse QUATRO) reprovações em Física 1 na universidade. Eu realmente não sabia nada de Física.

Com o passar do tempo e das complicações de minha vida acadêmica, que vou deixar de lado por não ser o foco desse texto, acabei estudando Física na Universidade, com foco em Licenciatura para ser professor. No final do curso existe uma disciplina que mostra como foi a evolução do ensino de Física no Brasil, e passamos a entender porque somos tão fracos no tema. De maneira resumida, os militares tentaram implantar um sistema parecido com o PSSC no final da década de 70 e começo da década de 80. Quem estudou em escola pública nessa época até hoje tem uma lembrança saudosa de como foi bom o seu período e de como o ensino era melhor do que nas escolas privadas. Mas aí veio a democratização e outro pensamento, que achava ser mais importante aprender ciências humanas que exatas, acabou sendo implantado nas escolas. O resultado é o que temos aí: uma escola que não faz direito nem uma coisa nem outra.

Sociedade e valorização da tecnologia

Não vou perder meu tempo aqui dizendo (de novo) como nossa sociedade não valoriza os professores pois isso é chover no molhado. Agora pense na imagem que você tem de um Físico: geralmente um maluco que não tem sequer uma profissão decente. Sim, porque ser Físico não é o mesmo que ser Engenheiro e não é considerado profissão, mesmo sabendo que um Engenheiro está para um Físico assim como um peão de obra está para um Engenheiro (sarcasmo).

Agora se ponha no lugar de um pesquisador de tecnologia no Brasil: após estudar a sua vida inteira, digamos uns 12 anos na educação básica, mais 3 anos no ensino médio, mais uns 10 entre graduação, mestrado e doutorado você está pronto intelectualmente para colocar em prática tudo o que aprendeu para fazer inovação. E o que você pode fazer em nossa sociedade? Virar professor universitário.

Sim, é extremamente frustrante ver que não é possível produzir nada (repito, NÃO DÁ PARA PRODUZIR NADA) no Brasil. Não existe investimento privado em Pesquisa e Desenvolvimento e ficam todos se matando pela verba de pesquisa do CNPQ. Ok, esse dinheiro não deveria nem vir do Governo, mas esse é assunto para outro texto. Não há dúvidas que os brasileiros têm uma excelente capacidade científica, mas o que fazem nossos melhores doutores? Vão trabalhar na indústria americana, onde realmente há dinheiro para pesquisa.

Indústria aeronáutica é a luz no fim do túnel

A exceção à regra já é conhecida: a indústria aeronáutica. A Embraer é uma das maiores do ramo em sua área, crescendo em um misto de investimento público e privado. Eles têm um privilégio que nós, da indústria de software, adoraríamos ter: podem vender sem restrições para o Governo Brasileiro. A fórmula para o sucesso está formada: administração privada, investimento público, desenvolvimento de tecnologia no país, parceria com universidade e institutos de pesquisa.

Uma pergunta que você talvez consiga responder rápido: qual é a melhor Universidade do Brasil? De cada 10 respostas, pelo menos 9 citarão ITA e Unicamp. Sabe qual o foco delas? Isso mesmo: produzir engenheiros para alimentar a indústria aeronáutica. E aí não estamos falando somente de engenheiros aeronáuticos, mas para produzir um avião são necessárias, DEZENAS, talve CENTENAS de indústrias que produzem componentes para as diversas etapas da cadeia de produção. Precisa de soldadores, mecânicos, até mesmo fabricante de pneus e estofados para colocar no avião.

Acaba produzindo ainda um efeito cascata de alimentar o sonho das crianças da região, que vão buscar uma formação melhor em Matemática e Física para serem engenheiros e poderem trabalhar na indústria aeronáutica. Pergunte a si mesmo: por que existem tantos filmes sobre o espaço? Qual é a profissão dos sonhos de quase todas as crianças americanas? Se você respondeu astronauta você está certo. Você acha que isso tudo é por acaso? O PSSC nos comprova que não.

Palmas para o Projeto FX-2

Não é à toa que o Projeto mais revolucionário em pesquisa em inovação dos últimos 50 anos talvez venha da mesma indústria. Veja aqui todo o histórico do processo de contratação, num execelente infográfico disponibilizado pelo Ministério da Defesa.

Infográfico do processo de contratação dos caças
Fonte: Ministério da Defesa

Veja o ano: 2001. Levou 12 anos para a conclusão de um processo licitatório no Brasil. E tem gente que ainda acha que esse processo é bom, mas tratemos do problema em outra oportunidade. E você deve estar se perguntando: por quê escolher os caças suecos? Veja a resposta no FAQ do Ministério da Defesa:

Pesaram também na escolha aspectos relativos à transferência de tecnologia e às contrapartidas comerciais (offsets) oferecidas pela proposta sueca. A propósito do assunto, eis o que dispõe a Estratégia Nacional de Defesa (END):

“Consideração que poderá ser decisiva é a necessidade de preferir a opção que minimize a dependência tecnológica ou política em relação a qualquer fornecedor que, por deter componentes do avião a comprar ou a modernizar, possa pretender, por conta dessa participação, inibir ou influir sobre iniciativas de defesa desencadeadas pelo Brasil.”

É preciso ficar atento às nuances aqui: transferência de tecnologia e contrapartidas comerciais. Já está claro o que a empresa sueca pretende: construir o novo caça junto com o Brasil. Vai inclusive construir uma fábrica aqui que produzirá 80% dos componentes, além de já ter se proposta a promover a evolução tecnológica dos sistemas internos do caça, que são considerados defasados em relação aos americanos. Não vou dizer todas as nuances porque são muitas, então acesse aqui o Portal Poder Aéreo e veja a melhor coletânea de textos sobre o processo licitatório da Internet.

Gostaria de finalizar o (longo de novo) texto com três observações. A primeira é uma referência à década de 80, encarnada no filme Top Gun. Deixemos de lado as observações sobre a homossexualidade dos atores e pense: quem não teve vontade de ser piloto vendo aquele filme? Imagina se não pudesse ser piloto no Brasil, como não se dedicaria mais aos estudos? Pessoalmente prefiro no filme a galera que fica no computador calculando as rotas do jato, mas esse tipo de profissional simplesmente inexiste no Brasil. Concluir um processo como esse é dar oportunidade à nova geração e ao fomento de toda uma indústria que poderá empregá-los depois.

A segunda diz respeito ao valor do processo e às reais necessidades do Brasil. Muitos argumentam que o Brasil tem necessidades maiores do que os caças, como escolas por exemplo. Aí eu pergunto para esses: que escola? Qual é a motivação que um jovem tem para estudar hoje em dia? Para trabalhar onde? Em que indústria? Jovens são movidos por sonhos, e precisamos fornecê-los a capacidade de sonhar. Se você acha que eles vão para a escola simplesmente porque eles têm que ir, desculpe mas essa geração não funciona mais assim. É preciso mostrar a eles o benefício do estudo, e se não se transformar em um meio para atingir o sonho, eles não vão estudar. Assim, comprar os caças é também investir na educação em alguns dos seus mais importantes aspectos.

Finalmente a última observação diz respeito ao modelo de compartilhamento. Sim, eu disse compartilhamento. O modelo proposto para os caças é aquele em que os países constróem em conjunto e também colhem os louros do sucesso em conjunto. Sabe quem tabém faz isso? O Software Livre. E aí eu me pergunto: por que o Software Livre não está na Estratégia Nacional de Defesa? Gostaria que algum militar me respondesse, porque eu não consigo entender.

Deixo aqui para você refletir a reportagem mais completa sobre a licitação, publicada pelo G1 com direito a infográficos e tudo o mais. Divirta-se:

Reportagem completa sobre a licitação FX-2 no Portal G1

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