Bradley Bravo Manning

Foto do soldado Bradley Manning

O soldado norte-americano Bradley Manning, acusado por ter vazado informações sobre as guerras do Iraque e Afeganistão para o site Wikileaks, confessou culpa em 11 das 22 acusações que foram imputadas a ele na corte dos EUA. Um relato completo sobre o caso pode ser encontrado aqui (em inglês): http://rt.com/usa/manning-sentence-wikileaks-assange-626/

Dada a notícia, imaginemos o contexto da acusação. À primeira vista, pode parecer errado a qualquer um que um soldado com acesso a documentos sigilosos decida simplesmente vazá-los para a imprensa. Afinal, ele trabalhava na área de inteligência do exército e não dá nem pra imaginar o tipo de material ao qual ele tinha acesso. Contudo, imagine você, possivelmente um militar ou um funcionário público, vendo alguns de seus companheiros de trabalho que pilotam um helicóptero com altíssimo poder de fogo, atirando contra civis e se divertindo com isso. O que você faria?

Quer imaginar? Então simplesmente veja esse vídeo.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=5rXPrfnU3G0]

Eu não sou jornalista mas certamente deve ter algum que vai ler isso daqui. Aí eu pergunto: qual o valor jornalístico que um material como esse tem? Podem ver que havia um repórter da Reuters, um dos atingidos pelo helicóptero, tentando obter fotos certamente piores do que essas. A divulgação do material só foi possível por causa do Wikileaks.

Não há dúvidas de que a publicação de conteúdo e/ou notícias está passando por uma grande mudança, e o Wikileaks é parte fundamental nela. Esse portal, que tem como objetivo permitir aos usuários publicarem suas próprias notícias, poderia ser potencialmente um mini Wikileaks. Suponhamos o caso em que algum funcionário público poderoso te peça propina. O que você pode fazer? Publicar no Correio Brazilliense? Dificilmente, mas a Internet tem o poder de dar voz a todos os cidadãos.

Soma-se a tudo isso o fato de que os dados liberados por Manning tiveram uma repercussão muito grande na Internet, permitindo um verdadeiro debate sobre a situação nas redes sociais. Barack Obama soube se aproveitar muito bem de tudo o que estava acontecendo, e muitos dizem que a nova geração o elegeu por causa da rede e através dela, impulsionando sua campanha como doações. Não fosse a Grande Rede, talvez nada disso tivesse acontecido e Manning teria sido condenado do mesmo jeito.

Já falei muitas vezes sobre a desobediência civil como ferramenta de mudança, e certamente estamos vendo um caso de desobediência militar que foi, de acordo como muitos, o principal motivo para o fim nas guerras de Iraque e Afeganistão. Obviamente, toda desobediência tem um custo, e Manning quase que certamente vai pagar por ela: 20 anos de prisão somente pelas condenações nas quais ele se declarou culpado.

Assim como o Grande Aaron Swartz, Bradley Manning é um importante agente de mudanças de nossa geração. Junto com Julian Assange, fundador do Wikileaks, tornou-se o principal responsável pela reconstrução da circulação de informação privilegiada na imprensa. Nada mais de declarações em off ou troca de favores: pura e simples divulgação de informação que alguém, no caso um funcionário público militar, não poderia mais ocultar e se calar.

O mais impressionante ainda? Por causa da similar americana da Lei de Acesso Informação (LAI, para os íntimos), o próprio julgamento tem todos os seus documentos publicados. Em outros casos poderia ser montada uma mega operação de “abafa” para simplesmente “sumir” com ele ou promovê-lo para um local distante e mantê-lo calado. Deem uma olhada nesse filme e vejam do que estou falando. Com a publicação de todo o caso, simplesmente não é mais possível fingir que o evento não aconteceu.

Os tempos estão mudando, mas as pessoas também estão. Agora a voz de todos é importante, graças ao poder das redes. E como muito sabiamente me disse uma vez o amigo Jomar Silva:

“Todo o mundo pode ser um imbecil numa sala fechada, mas dificilmente continuará sendo em público.”

Mais eficiente do que fiscalizar o trabalho de alguém, é simplesmente mostrar o que ele está fazendo. A população é capaz de julgar o resto.

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