Estamos conquistando vitórias com as manifestações

A presidente Dilma foi bem em seu pronunciamento, menos na parte esportiva. Se não tivesse feito 12 sedes e sim 8 sedes, como normalmente é em todas as Copas do Mundo, já teria emprestado menos dinheiro para essas obras e esse dinheiro poderia ter ido para outros lugares, como para a Educação, para a Saúde, para o Transporte… O Brasil deixaria de aplicar dinheiro em 4 estádios. Ela mostrou enorme preocupação com a segurança na Copa do Mundo, quando pede para que os brasileiros recebam bem os “irmãos” de fora. Nós temos que receber sim, mas isso mostra uma enorme preocupação da presidência com o que poderá acontecer ainda durante a Copa das Confederações e na Copa do Mundo. Ela tem toda a razão quando diz que nós temos uma responsabilidade perante o mundo de receber o mundo de uma maneira hospitaleira e festiva como sempre fomos recebidos. Que a essa altura, eventualmente, não receber uma Copa do Mundo ou ter a Copa das Confederações interrompida, que é o risco que ainda se corre, apenas agrava o problema. Porque os gastos já foram feitos, então não teria nem a possibilidade de se ressarcir em parte esses gastos.

Tudo o que vem ocorrendo no Brasil nesses últimos dias coloca em xeque a segurança da Copa do Mundo, como está colocando em xeque a segurança da Copa das Confederações. Nós estamos falando de 8 seleções presentes na Copa das Confederações, distribuídas em 6 sedes. Daqui a um ano serão 32 seleções, distribuídas em 12 sedes. Não creio que a continuidade dos movimentos que nós estamos vendo nos últimos dias assegure a segurança de um evento do porte da Copa do Mundo, entendo que continuam sob risco. Esse evento-teste que nós estamos vivendo agora, a Copa das Confederações, é um MICRO evento perto do que vem por aí. Estamos sob análise, e duvido que a FIFA tenha um plano B a poucos meses do Mundial. É de se aguardar além da questão da demonstração dos custos da Copa do Mundo, como se manifestarão as outras delegações, as outras confederações depois do que está ocorrendo durante a Copa das Confederações no Brasil.

Mas senti falta de uma coisa quando ela fala da hospitalidade. Queria que ela tivesse dito que gostaria e reconhece que as manifestações são absolutamente legítimas e que elas devem continuar acontecendo, mas que pedisse encarecidamente que nesse momento elas fossem um pouco mais brandas. Porque não adianta você falar que não vai ter vandalismo. Se tiver um milhão de pessoas na rua vai ter 10 pessoas que vão atirar pedra, que vão botar fogo. Não tem jeito, é difícil combater isso.

O que eu mais gostei foi a Presidente dizer que todos os recursos do petróleo vão para a Educação. O Brasil não está crescendo mais porque não tem Educação, essa é a grande verdade! A economia não cresce porque não tem Educação, porque não tem gente preparada. Não houve investimento na Educação nos últimos 500 anos, por isso, o que eu mais gostei foram os recursos do petróleo indo para a Educação. O que eu gostei também foi a referência que ela fez a necessidade da Reforma Política, porque evidentemente nós estamos diante de um quadro de absoluta crise de representatividade. As pessoas não se julgam representadas pelas Câmaras Municipais, pelas Assembleias Legislativas, pelo Congresso Nacional, então isso é um problema que precisa ser resolvido.

O Deputado Miro Teixeira (PDT/RJ) cerca de dois anos atrás apareceu com uma proposta muito boa que eu gostaria de ver retomada e rediscutida no Brasil. Que era uma espécie de constituinte que não mexeria com os atuais mandatos, mas elegeria uma mini constituinte para tratar das questões emergenciais da vida brasileira, a necessária Reforma Política, a necessária Reforma Tributária… Enfim, as questões que estão aí em ebulição e que precisam ser resolvidas e que não são resolvidas. Seria uma resposta à massa nas ruas, seria uma oportunidade de renovação da representação política, do surgimento de novas lideranças. Porque, claro, tem toda a razão a Presidente Dilma quando diz que sem partidos não chegaremos a lugar nenhum, vira o caos. Há um movimento perigoso de aproveitamento político, uma briga já declarada, um rompimento entre direita e esquerda. Porque não adianta dizer que não tem mais direita e esquerda, porque há! Tem que haver partido político, senão seria uma Ditadura! A Democracia exige partidos políticos! Partidos políticos tem que se reciclar, tem que ter representatividade, tem que ouvir a voz do povo, mas tem que existir.

Foi superficial e pouco convincente a alusão sobre os investimentos nos estádios. Infelizmente a prática nesse país não é exatamente essa, a de que certas dívidas que são contraídas serem pagas como deveriam. Não tenho muita duvida de que as obras faraônicas feitas para a Copa do Mundo de alguma maneira foram uma espécie de gota d’água que transbordou no copo das insatisfações populares. Não é a toa que a gente vê tanto cartaz escrito: QUEREMOS ESCOLAS E HOSPITAIS PADRÃO FIFA.

O que a gente precisa é de estadistas que parem de mentir para o povo, que parem de dizer que esse tipo de evento dá lucro, porque não é verdade. A gente precisa falar as coisas com o as coisas são e temos muito poucas pessoas falando as coisas como as coisas são. Quer a prova disso? Quantas pessoas poderiam, como fez a Presidente, ir à televisão e convencer, apontar caminhos para o povo brasileiro? Quantas pessoas? Não é apenas políticos! Quantas pessoas no Brasil, hoje, teriam essa capacidade, teriam essa credibilidade para falar para o povo e dar caminhos para que as coisas comecem a se encaminhar para melhores soluções?

A parte mais complicada de todo o pronunciamento da Presidente é essa que ela diz que o dinheiro dos estádios voltará aos cofres públicos, porque as empresas que de certa forma arrendaram os estádios irão devolver esse dinheiro. Todas as contas não apontam nessa direção. Temos a questão que envolve os estádios feitos para a Copa do Mundo com empréstimo, sim, do BNDES, mas bancados por governos estaduais, governos que pegam dinheiro com BNDES porque o próprio Governo Federal estimulou a criação de uma linha de crédito extremamente generosa, com baixíssimas taxas de juros para que esses estádios pudessem ser construídos.

Essa história do BNDES tem dois pontos que acho importante definir. A reforma do futebol brasileiro com a Copa do Mundo deveria ter sido pautada como foi no modelo inglês, com estádios com financiamento privado, com financiamento para o clube ter um prazo X e deixar o estádio pronto. Haveria financiamento do BNDES, pegaria o dinheiro e devolveria.

O Presidente Lula disse que não haveria dinheiro público federal na Copa do Mundo e de fato não há dinheiro público federal investido, há o BNDES. O BNDES é o principal instrumento de financiamento de longo prazo para a realização de investimentos em todos os segmentos desse país, se tivesse um plano absolutamente legítimo de reconstrução do futebol brasileiro, para o futebol brasileiro gerar emprego, gerar receita, gerar imposto e devolver para os cofres públicos seria perfeito, mas teria que ser um modelo com estádios privados.

Os nossos estádios nasceram de uma ótica fascista. Então, o que precisava ter acontecido, em minha opinião, era privatizar os estádios. Fazer a licitação. Ganhou a licitação? Vai reformar ou construir o estádio e explorar o estádio por 40 anos, essa é a lógica. Hoje há gente já pagando o BNDES por construção de estádio, não de Copa do Mundo. O Grêmio paga R$ 3.700 milhões por mês ao BNDES. O Grêmio está pagando religiosamente em dia as prestações do clube ao BNDES. Então, também não é verdade que o dinheiro que saiu do BNDES não está voltando, no caso do Grêmio está voltando. O problema é que nossos estádios são públicos, lógica fascista da construção de estádios para Pão e Circo. A gente comprou os estádios no Estado Novo e na Ditadura Militar e ficou com elefantes brancos dos anos 50 e 70 e esses elefantes brancos continuaram sendo elefantes brancos públicos.

E aí entra um aspecto importante demais, uma pesquisa do DataFolha indica quais são os principais focos de reivindicação das manifestações e a Copa do Mundo não aparece, mas aparece em primeiro lugar. Não aparece como COPA DO MUNDO, mas aparece em primeiro lugar, porque aparece CORRUPÇÃO, é esse o ponto fundamental. Os estádios deveriam ser privados, mas não são. E porque não são o financiamento foi feito com dinheiro do BNDES por governos estaduais ou não. Porque, por exemplo, o Governo do Distrito Federal, no Mané Garrincha, investiu R$ 1.200 bilhão e não pediu recurso do BNDES. O que é muito mais grave! Porque no caso do GDF, o Sr. Agnelo Queiroz pegou todo o dinheiro do GDF, que não é dinheiro público federal como disse o Lula lá atrás, e botou no bolso dele, botou no bolso de nós calangos, que é de certa maneira o bolso do cidadão brasileiro.

O ponto é que começou tudo errado! E um erro que a gente comete às vezes é dizer: “Não precisamos de estádios”. O futebol brasileiro precisa de estádios sim, estádios de primeiro mundo, só que deveriam ser financiados, pagos com dinheiro da iniciativa privada. O clube teria acesso ao dinheiro do BNDES, com taxas, talvez, mais favoráveis, desde que houvesse um projeto para que isso virasse imposto. Arrecada-se mais, paga-se mais impostos e aí o dinheiro volta para os cofres públicos, como foi a lógica da reconstrução do futebol britânico. O futebol britânico produz muito mais dinheiro para o Estado hoje, porque ele arrecada muito mais. Como o governo brasileiro nunca se importou realmente com a indústria do futebol, porque é uma indústria sim, o futebol brasileiro está à míngua e os políticos mamando nos estádios que são públicos.

E uma coisa não foi falada, nós temos a Copa das Confederações, nós temos a Copa do Mundo e temos a Olimpíadas, no Rio de Janeiro, logo a seguir, também com gastos faraônicos e desmandos. No mesmo lugar onde se realizou um evento de grande porte recentemente e não deixou legado nenhum. O Pan-americano no Rio de Janeiro foi o exemplo da insensatez, o exemplo da roubalheira.

E para finalizar, quero dá parabéns aqui para o Movimento Passe Livre! Porque graças a esse Movimento nós estamos conquistando algumas vitórias. Que não foi só a derrubada da tarifa, mas também mobilizar a Presidente da República, que prometeu empenhar o restante do seu mandato na Reforma Política, reunir os governantes para discutir a mobilidade urbana, para aplicar o dinheiro da Educação… Então, parabéns para o Movimento Passe Livre! Mas o Movimento Passe Livre disse que irá se retirar das ruas, que aí é que é preocupante. Porque não é só bandido e vândalo que está nas ruas.

Resumindo, eu achei importante a Presidente falar, talvez tenha falado até um pouco tarde, mas ainda há tempo. Então, agora é aguardar para ver se ela vai de fato conseguir levar a diante essa intenção que manifestou em seu pronunciamento. A questão mais complexa ela foi bem superficial, a verdade é que não daria para se aprofundar tanto nesse pronunciamento. Mas não é tão simples assim, me parece.

O que eu mais gostaria é calma, a gente precisa botar a bola no chão.

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