Por que fomos monitorados?

1984-Big-Brother

Depois do que escrevi sobre o caso Snowden, você deve estar se perguntando: por que fomos monitorados? Afinal de contas, qual o interesse que o Obama tem nas minhas conversas do facebook? O que ele quer com meu twitter? Pra que estão me monitorando, afinal?

Cartaz do Grande Irmão

A resposta é dada nessa entrevista do Professor Pedro Rezende (sim, ele mais uma vez), onde explica os motivos pelos quais o programa foi instalado: dinheiro. Pura e simplesmente dinheiro.

Para entendermos o que o dinheiro tem a ver com todo esse programa de monitoramento, é preciso primeiro voltar um pouco no tempo para um serviço que a maior parte dos usuários desconhece, mas que hoje tem fundamental importância no capitalismo internacional: soluções automatizadas para negociação em bolsa de valores. Para a maior parte das pessoas, a única informação que interessa é o valor que a ação fecha ao final do dia, indicando se houve lucro ou prejuízo.  Contudo, o valor da ação não é linear, e até atingir o fechamento ele oscila bastante durante o dia, como podemos ver no gráfico abaixo.

Gráfico BOVESPA
Gráfico de oscilação do dia 16/07/2013

Se analisarmos apenas o fechamento veremos que ao final do dia o índice caiu. Isso significa que todos tiveram prejuízo? Não necessariamente. Se alguém comprou quando o gráfico estava lá embaixo e vendeu alguns instantes antes do fechamento, mesmo em um dia ruim para a bolsa ele conseguiu ter lucro. O próprio fato do índice ter aumentado só pode ter significado uma coisa, de maneira bem simplista: pouco antes do final do dia tinha mais gente querendo comprar do que vender, e por isso o preço estava subindo.

Uma solução de negociação automatizada bem configurada seria capaz de, no momento de menor valor do índice, executar muito mais transações do que qualquer ser humano, sendo capaz de fazer milhares e até milhões de transações de compra e venda por segundo. Se houvesse uma ferramenta capaz de prever o exato momento de baixa da bolsa, seria então possível ativar um robô para fazer negociações e maximizar os lucros naquele dia, mesmo tratando-se obviamente de uma perda.

Agora imagine que durante uma semana a bolsa teve o mesmo gráfico de oscilação. Ora, seria possível saber, através de matemática simples, que a partir de determinado horário ela passaria a subir e não pararia até fechar o pregão. Assim, com as soluções de negociação, eu ficaria na minha casa tomando café enquanto um robô construído por mim maximizaria meu lucro dia após dia.

A coisa não é toda tão simples assim e existem muitas variáveis que estou desconsiderando, como o fato de ter mais gente comprando fazer o preço subir, etc. Se fosse fácil assim estariam todos ricos, vale lembrar. Na verdade, matematicamente ainda não há um padrão para o comportamento da bolsa, pois ela depende muito de algo que é difícil de medir: o comportamento humano. Aquela sensação que temos ao ver uma loja com fila  e associarmos ao sucesso, enquanto outra sem fila é associada ao fracasso gera o famoso “efeito manada”, muito discutido em mercados financeiros. Na crise da década de 30 nos EUA, por exemplo, apesar da população ter quebrado de maneira geral, as empresas que vendiam bebida foram muito bem. O povo afogou as mágoas na cachaça e isso gerou lucro para um pequeno nicho de empresas, ainda que a queda na bolsa tenha sido vertiginosa.

Já existem aproximações matemáticas, principalmente baseadas em Inteligência Artificial, que são capazes de fazer cálculos indicadores de tendência de alta ou baixa. Ainda que não seja possível definir com exatidão o preço que vale aquela ação, os algoritmos são capazes de dizer se ela vai subir ou vai descer. Contudo, para que a inteligência funcione, precisamos alimentá-la com um combustível muito especial, e aí começamos a entender a importância do PRISM: informação. Se houvesse um super computador que recebesse como entrada tudo o que toda a humanidade está pensando nesse momento, ele seria capaz de prever uma tendência de  compra ou uma necessidade nesse ou naquele produto. Sabe o que é mais assustador de tudo isso? O super computador existe e se chama facebook.

A cada mensagem compartilhada, música ouvida, foto vista, estamos alimentando a maior fonte de informações da história da humanidade, que já possui mais de um bilhão de usuários ativos mensalmente. Você pode pensar que não tem nada a esconder, e provavelmente não tem mesmo, mas isso não importa. O que importa é que suas informações são entrada de um gigantesco sistema de manipulação e processamento que traz, como resultado final, a manutenção da indústria armamentista norte-americana. Não só isso, serve para financiar empresas gigantes que agem globalmente em guerras de países miseráveis, fornecendo não só armamento para as chacinas, como também inteligência para a manutenção de regimes que passam longe dos Direitos Humanos.

Como o meu amigo Anahuac bem falou em sua palestra no FISL, as informações sobre os protestos no Egito chegaram ao “Presidente” quatro meses antes de tudo acontecer. Era tempo mais do que suficiente para reprimir uma revolução utilizando uma ferramenta conhecida desde os tempos de Maquiavel: repressão aos líderes, dissimulação e manipulação dos meios de comunicação. Ele só não o fez porque não acreditou que a fonte informações, o facebook, estivesse tão certa. Nesse caso, o seu facebook estaria colaborando com a manutenção do regime no Egito.

Aí eu te pergunto: é isso o que você quer? A ignorância pode ser uma bênção, mas agora que você sabe, como se sente? Reflita. Simplesmente isso.

 

 

O que aprendemos com Edward Snowden

Reunião com Snowden

Para quem vive em outro planeta e não sabe o que está acontecendo, Edward Snowden é o agente da NSA que “jogou tudo no ventilador”, ao revelar o que muitos de nós já sabíamos: todas as comunicações através da Internet são monitoradas. Não apenas são monitoradas, mas alguém está de fato lendo tudo o que escrevemos por aqui. Se quiser entender onde tudo começou, sugiro que leia o post que publiquei sobre quem é o verdadeiro dono da Internet. Veja aqui também o relato do amigo Anahuac, e principalmente a entrevista do Professor Pedro Rezende.

Na Sexta-feira, o wikileaks (é claro que tinha que ser o Wikileaks) publicou aquela que parece ter sido a primeira declaração de Edward Snowden para um veículo realmente independente, longe das análises equivocadas dos analistas de sempre com seus conceitos e políticas de sempre. A entrevista completa pode ser lida aqui, já traduzida para o Português:

http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/07/declaracao-de-snowden-em-sheremetyevo.html

Leia aqui a versão original em inglês.

Gostaria de chamar a atenção de todos a alguns trechos de sua entrevista:

Boa-tarde. Meu nome é Ed Snowden. Há pouco mais de um mês, eu tinha família, um lar no paraíso, e vivia com grande conforto. Tinha também meios para, sem qualquer ordem judicial, procurar, avaliar e ler as comunicações de vocês todos. Comunicações de qualquer pessoa, a qualquer momento. É o poder para mudar o destino das pessoas.

Eu acho que muita gente ainda não entendeu a gravidade essas denúncias, então vou tentar ser mais claro: sabe aquela vez que você trocou uma mensagem com alguém, que tinha uma foto mais, digamos, picante? Alguém viu essa foto. Sabe aquela conversa feita pela Webcam com aquela “senhora de respeito”? Tinha alguém assistindo. Sabe aquele segredo de governo que você enviou pelo GMail ou e-mail pessoal para não trafegar nos canais oficiais de comunicação? Alguém leu.

Durante muito tempo ninguém deu a mínima pra isso, como no caso do Governo de SP que fez um acordo IMORAL com a Microsoft com a desculpa de que seriam cedidas caixas de correio gratuitamente aos alunos. Sem entrar no mérito técnico de analisar todo o comportamento de uma sociedade que está crescendo através do e-mail, obrigar professores e alunos a dar de graça seus dados ao Governo Americano é simplesmente burrice. À época, a “mídia especializada” tratou a notícia como boa, e ninguém se indignou com o fato.

Pois bem, parece que os dias de imoralidade escondida estão finalmente acabando. Somente me chamar de maluco não vai mais resolver o problema, e chegou a hora de alguém tomar uma atitude real. É preciso entender que o problema está longe de acabar. Veja outro trecho da declaração.

Assim, fiz o que acreditei ser certo e comecei uma campanha para corrigir esses malfeitos. Não procurei riqueza para mim. Não procurei vender segredos dos EUA. Não colaborei com qualquer governo estrangeiro para garantir minha segurança. Em vez disso, levei o que eu sabia para a opinião pública, para que o que nos afeta todos nós possa ser discutido por todos nós à luz do dia e pedi justiça ao mundo.

Vejam que o governo americano está perseguindo-o com a acusação de espionagem, ou seja, de ter vazado o fato de estarem investigando a vida das pessoas sem autorização. Parece absurdo, mas é verdade.

Contudo, o mais importante é aprendermos com tudo o que está acontecendo. Muita gente acusa o Brasil de estar se vendendo para os americanos, mas gostaria de convidá-los todos a fazer uma reflexão com base nas notícias e palavras de Snowden. Vou tentar variar as fontes para ser o mais claro possível e eliminar um pouco a influência desse ou daquele estilo de escrita.

Notícia: EUA espionaram milhões de e-mails e ligações

Tradução: Agora eles não podem mais esconder

Notícia: América Latina exige explicações de Governo dos EUA

Tradução: Dá pra compartilhar com a gente também?

Notícia: Explicações do governo americano são consideradas insuficientes

Tradução: A proposta pra entrarmos no esquema precisa melhorar

Se o PRISMa americano foi atirado no ventilador, o Brasil está na fila. Também já falei sobre isso há muito tempo e vou repetir para que não digam que não avisei: todo o tráfego de Internet que sai pela operadora Oi é monitorado. Ok, você vai me chamar de maluco de novo. Ou será que vai me enxergar sob um novo PRISMa?

A nossa única salvação é o Marco Civil da Internet. Vamos pra rua exigir que ele seja votado?

Não podemos entregar nossa biometria pra eles!

Biometria não!

Se você ainda não sabe, o TSE está não apenas pedindo, mas EXIGINDO que todos os cidadãos do Brasil realizem o seu recadastramento biométrico sob pena de perder o seu título de eleitor. Segundo o cronograma proposto pelo verdadeiro DONO da “democracia” brasileira, aqui em Brasília quem não se recadastrar para as próximas eleições vai perder o título de eleitor.

Ora, mas por que eu deveria estar preocupado com isso? Afinal é só mais um passo na já complexa burocracia de nosso governo, não é mesmo? Antes de mais nada dê uma lida aqui. Agora tenha o seguinte em mente: todas as informações que você coloca na Internet são públicas. Sim, eu disse TODAS! Tenha sempre aquela sensação de que alguém está fungando no seu cangote e lendo, simplesmente porque é verdade.

publiquei aqui também uma série de matérias que mostram como não dá pra confiar na Urna Eletrônica e muito menos na Segurança da Informação do TSE, uma vez que a rede já foi invadida.  Se você fornecer seus dados biométricos para o tribunal, ele estará de posse de uma identificação inequívoca sobre a sua pessoa. Isso significa que será digitalizado um registro único com a sua identificação para sempre, que poderá ser cruzado com outros bancos de dados para montar um perfil completo. Para quê? Com o objetivo de aumentar a segurança no processo eleitoral. Pelo menos é o que eles dizem.

Para não fazer mais um post demasiadamente longo, vou colocar aqui um link para uma campanha de Internet que está sendo propagada, com o objetivo de utilizar o ordenamento jurídico brasileiro para impedir que o TSE de nos obrigar a registrar a biometria. Em poucas palavras, você não deveria se recadastrar pelos seguintes motivos:

  1. A biometria não aumenta a segurança, pelo contrário. Você guardaria uma lista de senhas junto com os cartões de crédito? Pois bem: a urna grava a biometria e a lista de votos.
  2. A tecnologia proposta pelo TSE é fechada e terrivelmente ineficiente;
  3. O planejamento de implantação proposto é inadequado e confuso;
  4. Recolher os dados biométricos dos eleitores é contra a lei;
  5. Os dados da urna serão compartilhados com a Polícia Federal. Já há acordo pra isso;
  6. Como comprovado pelo escândalo do PRISM, você já está sendo monitorado. Adicionar a biometria é associar o seu eu virtual a você mesmo, na sua vida. Mais do que a Matrix;

Todos esses motivos e muitos outros estão expostos no brilhante texto do Professor Pedro Rezende.

O que estamos propondo então é um Movimento de Obediência Civil. O que isso significa? Mesmo o TSE sendo juiz e executor, vamos forçá-lo a cumprir a lei enviando uma petição para o juiz eleitoral informando que a biometria é errada, ilegal e nós não vamos fazer. Para isso, basta protocolar uma pedição cujo modelo já está proposto no site questionando o juiz eleitoral sobre a legalidade da biometria.

O que seria cômico se não fosse trágico é que estamos brigando pelo nosso direito de exercer a democracia num país onde somos tão pouco incentivados a fazê-lo, processo esse que é controlado por um órgão que de democrático não tem nada. Não existe nada no ordenamento jurídico nacional que se assemelhe a tal absurdo quanto ao totalitarismo do TSE, mas aprendemos esse mês que se formos pra rua nos manifestarmos as coisas podem realmente mudar. Chegamos ao momento de agir contra a ditadura das eleições.

Acesse o site da campanha e participe: http://www.brunazo.eng.br/voto-e/textos/recadastramento.htm

Eu já fiz a minha petição e vou protocolar. E você?

Biometria não!

A vida sob um novo PRISMa

Gostaria de lhe fazer uma pergunta: você tem smartphone, ou pelo menos um telefone com GPS? Já acessou o facebook pelo aplicativo nativo do seu telefone? Reparou que o símbolo do GPS às vezes acende mesmo que não esteja usando o aplicativo? Sim, quando o facebook faz a sincronia de seus contatos ele vai naturalmente pegar a sua localização, ainda que você não tenha explicitamente autorizado que a coleta seja realizada. Agora olhe para a sua timeline e veja que tudo o que você posta vem com a informação do local daquela publicação junto. Sim, ele está te rastreando o tempo inteiro, quer você queira, quer não.

Sempre me chamaram de maluco e paranóico, principalmente porque venho dizendo há muitos anos que somos monitorados o tempo todo na Internet. Veja um post que publiquei em 2009 sobre o “maravilhoso” Google Wave. Na época minha preocupação estava em ter computadores começando a entender o que estamos falando e armazenar essas informações. Veio então a explicação que dei sobre quem manda na Internet e, na sequência, a revelação por trás do que estava sendo feito no Skype. Ainda assim, muita gente não me levava a sério.

Aí vem um cara na TV e revela que tudo o que eu estava dizendo há muito tempo era verdade. Você ainda me acha paranóico? Assista esse vídeo:

http://globotv.globo.com/rede-globo/fantastico/t/edicoes/v/documentos-comprovam-que-os-eua-espionou-telefonemas-e-e-mails-de-brasileiros/2678091/

MILHÕES de brasileiros tiveram seus telefonemas ouvidos e seus e-mails lidos. Sim, sabe aquela mensagem “quente” que você trocou com sua mulher? É bem possível que alguém tenha lido. Na verdade, é bem provável que alguém tenha lido. Sabe qual foi a resposta oficial do Governo americano? Fiquem tranquilos, pois nós monitoramos mais os estrangeiros, principalmente os brasileiros. Entendeu agora?

Pois bem, é preciso aprendermos a viver sob um novo PRISMa, escrito de propósito assim mesmo. Vou publicar uma série de artigos explicando como tentar fugir do problema, mas antes dê uma lida nesse artigo aqui do Anahuac: será que você realmente precisa dessas redes sociais “devassas”? Tenha em mente a seguinte sensação: antes de começar a escrever qualquer coisa em qualquer rede social americana, alguém mais vai olhar aquilo. Preste atenção nos dados que troca por e-mail, pois aquelas mensagens estão sendo abertas sem seu conhecimento.

Finalmente, cuidado aonde vai pela Internet: sempre, mas SEMPRE MESMO tem alguém olhando nas suas costas enquanto está no computador.

A Revolução que chegou sem avisar

Saímos do facebook

Ainda não estou conseguindo escrever de maneira calma sobre tudo o que tem acontecido, principalmente porque estou realmente muito emocionado. Muitas vezes vendo os vídeos do povo se manifestando, cantando o hino nacional à capela no estádio, enfim, vendo a revolução acontecendo eu realmente fui às lágrimas. É um momento de muita emoção, e eu mesmo que sempre critiquei duramente a postura de nosso povo NUNCA MAIS duvidarei da capacidade de mobilização popular.

Sempre preguei o ativismo em complementação ao ciberativismo, pois toda a reclamação que presencio nas redes sociais raramente se tornava algo concreto. Era o momento em que precisávamos deixar de “xingar muito no twitter” e agir de fato para mudar alguma coisa. Pois bem, eis que o dia chegou, e pode ser representado através de uma imagem postada pelo Marquitos:

Saímos do facebook

E realmente o povo saiu do nicho de Internet e resolveu se comportar nas ruas da mesma maneira que se comporta nas redes. Qual foi o resultado? Total desconhecimento das autoridades do país sobre o que estava acontecendo. Claro que foram surpreendidos: a maior parte deles é matuto digital, ou seja, não sabe nem quer saber como funcionam as novas ferramentas de comunicação baseadas na Internet. A maior prova disso foi ver pessoas do meu círculo de amizades que sempre me acharam um chato por falar de política irem para as manifestações pelo simples fato de que era importante marcar presença. São pessoas que são ótimas de reclamar na Internet, mas nunca imaginei que pudessem sair à ação.

Esse fenômeno “reverberou” de uma maneira que eu nunca imaginei entre os “formadores de opinião” da rede. Todos aqueles que sempre foram engraçaralhos e por essa razão nunca contaram com minha audiência, quando sentiram que se tratava de algo maior, adotaram o tom de seriedade que o assunto merecia e apoiaram a manifestação de uma maneira que eu não esperava. Não vou citar todos porque seria impossível, mas não dá pra negar que Rafinha Bastos, Cauê Moura e Jovem Nerd, além de muitos outros, tiveram uma postura irrepreensível, surpreendente até. Destaco Cauê e Rafinha, por atingirem um público que não seria atingido de outra forma, aumentando ainda mais a importância do movimento.

O resultado é esse que podemos ver aqui: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/06/mais-de-100-cidades-se-preparam-para-manifestacoes-nesta-quarta.html

Para hoje teremos manifestações em mais de 100 (ISSO MESMO: CEM) cidades. Confesso que não imaginei que ia viver para ver isso, e estou tão emocionado que não consigo mais escrever. Só estou triste porque agora virei um burocrata de merda, e infelizmente não poderei comparecer. Contudo, como o Marco Gomes me ensinou nessas manifestações, qualquer atitude isolada vale a pena. Assim, cumprirei minha parte compartilhando vídeos, imagens e textos sobre tudo o que está acontecendo. Se não puder comparecer, faça como eu e ajude do seu computador.

A coisa toda é tão revolucionária que, para finalizar, vou fazer algo que nunca imaginei que fosse fazer na vida: recomendar um vídeo do Felipe Neto.

É isso aí Felipe! Assino embaixo de TUDO, ABSOLUTAMENTE TUDO o que você falou.

#VemPraRua

Revoltas da Copa em rede

Anonymous

Comecemos logo pelo mais importante: se você veio até aqui para dizer que as revoltas da Copa no Brasil são contra PT, PMDB, PSDB, Alckmin, Dilma ou qualquer outro partido, sinto lhe informar que você está enganado. Se pretende me xingar por ser deste ou daquele partido, dê uma olhada aqui antes e veja em quem eu votei. Dentre tudo o que está acontecendo hoje o que mais me incomoda são as análises superficiais e frias, chamando os manifestantes de baderneiros ou dizendo que são apenas “massa de manobra”.

Para te ajudar a entender o que quero dizer, deixe-me lhe fazer uma pergunta: você está feliz? Sim, sei que a vida vai bem porque somos otimistas por natureza, mas você está contente com os rumos do seu país? Você está gostando de não ter conseguido comprar ingresso pra um jogo na Copa? Ou se conseguiu, ficou feliz com o que encontrou lá? Aliás, você está feliz pelo simples fato de estar acontecendo uma Copa do jeito que está acontecendo no Brasil? Se refletir sobre essa questão vai perceber que você (assim como eu) poderia estar em uma das grandes manifestações que estão ocorrendo no Brasil.

Você acha que se trata deu uma questão isolada? Então eu vou trazer aqui um post que fiz em 2011, quando eu dizia que tudo o que aconteceu no Egito JAMAIS aconteceria no Brasil. Ao que tudo indica, eu estava redondamente enganado, e estou muito feliz de que tenha sido assim.

Quem estuda história sabe que as grandes revoluções não foram planejadas por seus mentores. Não me refiro a golpes de Estado, esses sim frutos de uma orquestração mais complexa, mas sim a coisas realmente grandes como as Revoluções Francesa e Comunista. Sempre há um estopim, ou aquilo que foi a gota d’água para as pessoas se mexerem, mas o fato é que já havia um sentimento de insatisfação crescente em toda a população. Quando o fato aconteceu, tudo o que tinham por dentro veio à tona, e o povo saiu à rua para decaptar seus líderes. No caso da Revolução Francesa, até mesmo o líder da revolta foi decaptado um pouco depois.

O que acontece no Brasil hoje começou no Egito, expandiu-se no Oriente Médio causando a Primavera Árabe, passou pelos Estados Unidos com o movimento Occupy Wall Street, teve um momento importante na Espanha com o Movimento 15-M, que ainda está vivo, e certamente ainda terá desdobramentos em outros locais.

O que mudou em cada um desses países foi o desdobramento. Alguns dirão que nada mudou de fato, e talvez estejam certos, mas não podemos dizer que eles foram irrelevantes. Somente em muitos anos seremos capazes de olhar para o mundo e compreender tudo o que nos cerca no momento.

No Brasil, é óbvio que tudo acontece por causa da Copa. Acredito mesmo que tenha muita gente revoltada com a construção dos estádios, remoção das arbitrária das das famílias para as “obras da Copa”, falta de investimento em educação e estádios milionários, enfim, por tudo isso. Deve ser o tal “estopim” que faltava para que tudo pudesse acontecer.

O maior símbolo para mim é a SONORA VAIA que recebeu o Presidente da FIFA, senhor Sepp Blatter, na cerimônia de abertura da Copa das Confederações. Como a Dilma tava ao lado, alguns tentaram interpretar como uma crítica ao PT, e acabaram perdendo o ponto central de tudo o que está acontecendo. QUALQUER AUTORIDADE ALI SERIA VAIADA. Até a mãe de alguém que subisse ali ia levar vaia.

Ricardo Teixeira, o antigo Presidente da CBF, em entrevista à Revista Piauí disse que estava “cagando de montão” para as críticas à sua pessoa, porque só se preocuparia se o dia em que saísse alguma coisa sobre ele no Jornal Nacional. E talvez ele estivesse certo há alguns anos, mas agora ele está simplesmente errado. Todos os que estão acostumados com as ferramentas de comunicação do século passado não conseguiram enxergar a importância que o ciberativismo poderia ter para uma população com mais acesso à Internet. E não viram a revolução chegando.

Para finalizar, gostaria de deixar dois recados aos que chamam os manifestantes de baderneiros: não é possível construir sem desconstruir antes. Vejam as imagens abaixo e reflitam.

Muro de Berlim
Queda da Bastillha

P.S.: Para o texto não ficar enorme vou apenas largar esse link solto: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed749_eric_schmidt_e_o_exercicio_furado_de_futurologia

Divirta-se. :)

Desdobramentos do caso FBI x Megapuload

Aviso de fechamento do Megapuload

Para quem não se lembra, o Megaupload foi fechado pelo Governo dos Estados Unidos há algum tempo, sob a alegação de ser uma fonte de pirataria. Houve muita controvérsia sobre o caso, uma vez que o serviço fica na Nova Zelândia e o FBI invadiu a casa do Kim Dotcom, fundador do site, para confiscar os servidores, computadores, enfim, tudo o que estivesse relacionado ao caso. ele chegou inclusive a ser preso por causa do site.

Se você não entende como os Estados Unidos podem fazer isso, já escrevi sobre quem realmente manda na Internet. Se tentarem acessar o antigo megaupload.com vão perceber que o DNS já nem responde mais, por decisão única e exclusiva do Governo dos EUA.

Pois bem, hoje de manhã chega a notícia pelo twitter de que o caso teve desdobramentos, em um tweet do próprio Kim Dotcom.

Ao que parece, o FBI levou mais do que apenas os computadores relacionados ao caso: invadiram a casa do cara com armas na mão e saíram levando tudo o que encontraram pela frente. A atitude foi considerada ilegal e a Justiça Americana mandou que o FBI devolvesse tudo o que não estivesse 100% relacionado ao caso.

Claro que ainda tem muita coisa para acontecer e novos desdobramentos ocorrerão, mas é interessante perceber como uma operação ilegal foi deflagrada e ninguém foi responsabilizado pelo caso. A próxima pergunta a ser feita é: o que acontece com os arquivos das pessoas que estavam armazenados lá e o FBI mandou o provedor apagar? Lá não tinha só pirataria: muita gente (inclusive eu ) utilizava o serviço para guardar arquivos pessoais na nuvem. Um grupo de usuários já preparou um processo contra o FBI por conta disso. O que vai acontecer? Só o tempo dirá.

Aviso de fechamento do Megapuload

Neymar saiu e a Globo não viu

Instagram do Neymar

Se você mora em Marte e ainda não sabe, vou te avisar: o jogador Neymar Júnior do Santos Futebol Clube foi oficialmente negociado para o Barcelona. Não, não quero entrar na lista do Gian Oddi com o melhor do twitter sobre a sua saída. Estou aqui apenas para registrar o anúncio oficial:

Instagram do Neymar
Foto: Reprodução Instagram

Você estava esperando a capa do jornal, não é mesmo? Pode falar a verdade, eu sei que estava. É assim que as coisas aconteciam antigamente. Sim, antigamente, porque hoje em dia não acontecem mais.

Naquela época, há quase uma vida atrás, o Barcelona marcaria uma entrevista coletiva para agradecer a escolha e apresentar o craque, não é mesmo? Talvez até apertassem as mãos em portas fechadas para divulgar o acordo, que provavelmente haverá. Então, qual seria a forma mais correta de “agradecer” pela escolha?

Conversa no twitter com Neymar
Foto: Reprodução twitter

Havia não sei quantos repórteres de todas as partes do mundo, milhares de pessoas tentando subornar fontes, enfim, todo o aparato da mídia tradicional estava montado com o principal objetivo de ser o primeiro a dar a notícia. O famoso furo de reportagem, o sonho de todo jornalista. Com o que aconteceu no caso Neymar, sabe quem deu a notícia? Ele mesmo, através do Instragram. Se não acredita em mim vai lá ver: http://instagram.com/p/ZwXvcIxtnX/

O assunto é relevante porque as grandes corporações de mídia estão tentando desviar o foco da mudança. Na maneira pela qual o Mercado se acomodou, a Internet é apenas mais um meio de comunicação a ser explorado pelas empresas, que oferecem a audiência na grande rede como parte do seu mídia kit. Ou seja: eles prometem anunciar na Tv, rádio, Internet, etc. Não à toa os maiores portais do país hoje são dos grandes conglomerados de comunicação: UOL pertence à Folha de São Paulo, Globo.com pertence à ela mesma, IG pertencia de maneira indireta à Brasil Telecom, e por aí vai. Que eles são grandes eu não tenho dúvida, mas já se perguntaram se a audiência deles é maior mesmo?

Todo o mundo já ouviu falar do tal Ibope, o instituto de pesquisa que é o terror dos apresentadores de televisão. O negócio deles funciona mais ou menos assim: as empresas de publicidade precisam ter estatísticas sobre o alcance de seus programas, então o que elas fazem? Contratam o Ibope para medir a audiência dos programas de televisão. Assim, quem tiver maior audiência vai receber mais publicidade para atingir mais público e por aí vai. Adivinha quem mede também a “audiência” na Internet? Claro, o nosso amigo Ibope, que adota um nome mais estiloso para a Internet: Ibope/NetRatings.

Vamos ver então: se eu sou TV e quero que meu programa dê audiência eu preciso alavancar o Ibope. Agora reflitam sobre o que sai mais barato: construir um programa bom, atrair público, atrair audiência, ou simplesmente aumentar o Ibope? Fica a dúvida, mas falamos sobre isso em outra oportunidade.

Suponhamos que os números do Ibope sejam confiáveis e você, como empresário, queira anunciar, digamos, na Rede Record. Quanto isso ia custar pra você e quantas pessoas você iria atingir, sem envolver segmentação para facilitar a conta? Segundo o site da própria Rede Record, 15 segundos no Balanço Geral custariam R$ 2.910,75 e atingiria algo em torno de 9 pontos na “escala” Ibope segundo a própria Record. Um bom número para o horário. 9 pontos pela metodologia seria algo em torno de 9% da população com TV assistindo o programa, ou seja, umas 200.000 pessoas em Brasília.

Bom, agora vejamos outros números interessantes. Você conhece o Estilo Candango? Não? Então divirta-se:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=PmFg7U2wQsg]

Esse cara, com um vídeo feito no seu quarto, atingiu até hoje quase 600.000 pessoas. Você pode argumentar que o vídeo foi feito há 2 anos, mas qual foi o custo que esse vídeo teve?

No dia de hoje especialmente estamos lidando com uma certa “carência” da grande mídia, pois o Neymar não deu a notícia exclusiva para o Jornal Nacional, como chegou a especular o jornalista Juca Kfouri. Ele simplesmente o fez pela Instragram, canal esse que é muito mais familiar à ele. Aí entra a questão importante: teoricamente o objetivo do anúncio é conseguir chegar ao público. As empresas mantém assessorias de imprensa para garantir que a informação da empresa chegue aos jornalistas e os mesmos a transmitam ao público da maneira que lhes parece a mais correta. Neymar acaba de provar que, se isso ainda não é desnecessário, pode se tornar em um período muito curto.

O único entrave para que isso aconteça é o acesso à tecnologia. Afinal, quantas pessoas podem ler algo publicado no Instragram, ou seguir o twitter do Neymar? Em Brasília, 71,7% das pessoas já navegam na Internet. Isso significa que a Internet já está acessível para quase todo o mundo, e não dá mais pra dizer que trata-se de algo restrito. A tendência é que o número cresça para algo próximo de 100%, assim como a televisão. A Petrobras talvez tenha sido a primeira grande empresa a perceber que, para enviar a mensagem a seus clientes, basta publicá-la. Não é preciso mais pagar um jornal de grande circulação e divulgar uma nota de página inteira como era feito antigamente.

Para finalizar, deixo uma pergunta: será que precisamos mesmo de jornal e televisão? Afinal, a melhor cobertura oficial é aquela feita por você mesmo, como bem nos ensinou a posse do Papa Francisco.

Comparação entre posses dos Papas
Foto: reprodução NBC

Será que alguma dessas pessoas em 2013 comprou o jornal no outro dia para ver a foto da posse? Eu acho que não.

O Vale do Silício do Cerrado?

Maquete da Cidade Digital

São quase 02h00 da manhã e estou conectado, junto com uma grande quantidade de meus companheiro de profissão. Após terminar uma das várias tarefas organizadas para o dia, é o momento de me dedicar um pouco ao meu hobby. Ou seria também um trabalho? Para o empreendedor de tecnologia, tudo é trabalho.

Não sei se todos sabem, mas fui durante um longo período de tempo estudante do curso de Física da UnB. Na verdade, me considero praticamente um Físico, já que faltavam apenas quatro matérias para eu me formar quando desisti do curso (ou ele desistiu de mim). Durante o processo de aprendizagem para me tornar professor, o referencial muito bem apresentado por alguns dos meus (bons) professores era o programa norte-americano para formar físicos, popularmente conhecido como PSSC.

O interesse americano era direto: estavam com medo de perder a corrida espacial para os russos, depois que eles conseguiram realizar o primeiro voo espacial tripulado, comandado pelo hoje famoso cosmonauta russo Yuti Gagarin. Qual a forma então de vencer os russos? Precisavam formar mais físicos, e rápido. Assim, desenvolveram um programa de ensino que começava ainda na educação básica, passando pela especialização em Matemática e Física ainda no High School e culminando numa colossal (bem ao estilo americano) injeção de recursos nas principais universidades e centros de pesquisa do país. O programa teve início em 1956 e o resultado veio poucos anos depois, como todos já sabemos.

Voltando um pouco no tempo, podemos ver um esforço similar acontecendo no mesmo país à época da Segunda Guerra Mundial para construir a bomba atômica antes dos inimigos. O Projeto Manhattan já foi apresentado em todas as mídias possíveis e imagináveis, e seu resultado também já conhecemos.

O que essas histórias têm em comum é a forma pela qual as coisas são construídas na cultura capitalista americana. Uma que até hoje traz consequências para todos nós é a criação do Vale do Silício, origem de tudo o que consumimos em termos de tecnologia no mundo. Tudo começa com uma grande ideia, como sempre. Um dos pesquisadores do laboratório Bell, William Shockley, tinha participado do projeto de criação do que ele acreditava ser uma tecnologia potencialmente transformadora (e realmente era): o transistor. Depois de ajudar o laboratório na criação, ao perceber o valor do que tinha em mãos, Shockley decide sair da empresa e criar sua própria para continuar desenvolvendo a tecnologia, escolhendo como sede um pequeno conjunto de casas na região de Mountain View, Califórnia.

Ele ainda não tinha um modelo de negócios claro, apenas sabia que queria trabalhar com semicondutores. A decisão foi a pedra fundamental para o que mais tarde seria o Vale, principalmente porque muitos outros pesquisadores e mentes brilhantes foram atraídos pela ideia. Aliás, a capacidade de atrair mentes brilhantes sempre foi considerada sua maior virtude.

A cultura de empreendedorismo e inovação vem ainda do começo do século, muito ligada à universidade de Stanford. O professor Fred Terman, presente na região desde o começo do século XX ainda quando existia uma indústria voltada para o rádio, sempre incentivava seus alunos a deixar a universidade e investir para que suas ideias se transformassem em empresas. Foi assim que surgiu a companhia Hewllet & Packard, e o modelo de colaboração entre faculdades e empresas difundido na época até hoje domina as relações no Vale. Foi Terman que ajudou a convencer Shockley a fundar sua empresa na região.

A capacidade de Shockley de atrair novos cientistas foi importante para atrair as mentes para o Vale, mas foi sua inaptidão social que deu o ponto de partida para o modelo empresarial dominante na regiãoOito cientistas, cansados do estilo ortodoxo de seu chefe, decidiram deixar a empresa e atraíram a atenção de um investidor da Costa Leste chamado Arthur Rock. Ele conseguiu um acordo que era inexistente à época: convenceu o dono da empresa Fairchild Camera and Instrument, estável e já constituída, a admitir todos os oito funcionários recém demitidos em uma nova subsidiária, a Fairchild Semiconductors. Todos receberam participação significativa na nova empresa, criando o modelo que combina capital de risco e participação dos funcionários, que hoje chamamos de startup.

Com o tempo os funcionários da nova empresa decidiram que ela não era rápida o suficiente nem grande o suficiente para as mudanças que planejavam implementar, e criaram outras empresas de semicondutores. À época o comportamento parecia absurdo, pois a cultura americana envolvia um funcionário trabalhando a vida inteira na mesma empresa. Alguém já viu isso em algum lugar? Dentre os funcionários que deixaram a Fairchild é possível citar Robert Noyce e Gordon Moore, fundadores de uma pequena empresa chamada Intel. Alguém conhece?

Contei toda essa história para mostrar os três ingredientes de fomento para a criação da região que, se fosse um país, estaria entre os dez maiores PIB’s do mundo. Maior inclusive que de todo o Brasil. São eles:

  1. Grande quantidade de mão de obra qualificada;
  2. Cultura empreendedora nos funcionários das empresas;
  3. Acesso a capital de risco.

Sabe que região possui características muito parecidas? Você pode me achar maluco e estou com preguiça de pesquisar as fontes, mas pense: em linhas gerais o Calango é bastante educado e com muito acesso a tecnologia. Se já não há tanto acesso assim a capital de risco, também não é possível dizer que ele não existe. Vou compartilhar aqui um pequeno pedaço de uma lista de investidores, que não divulgo totalmente por não saber se seu conteúdo é público. Veja e tire suas próprias conclusões: há ou não dinheiro para o investimento?

Então, onde está o nosso bilhão de dólares? O que nos falta ainda em grande escala é a cultura do empreendedorismo. Recentemente abandonei um cargo no Governo para me dedicar à iniciativa privada e recebi uma enxurrada de críticas, principalmente no seio familiar, por estar abandonando a “relativa estabilidade” do serviço público para uma vida totalmente incerta buscando negócios. Não, não há estabilidade no Mercado. Neste momento tenho um cliente cujo pagamento está há mais de dois meses atrasado, e sei que isso faz parte do processo. Contudo, como aprendi no Ciclo de Estudos da Prosperidade, o empreendedor não está preocupado em TER, mas está preocupado em SER o agente da transformação. As conquistas financeiras são consequência de um trabalho bem realizado, e não o contrário. Se conseguirmos ser úteis para a humanidade, certamente seremos recompensados por isso.

É por isso meus amigos, que os convido a romper com essa tradição de concurso público. Que tal ao invés de se preocupar com a estabilidade de uma sólida carreira no Governo começarmos a nos preocupar em construir algo de diferente para o país e para nós mesmos?

Who What How Much From/To Sector Source
2013/01 Kekanto Raised undisclosed W7 Brazil Local http://exame.abril.com.br/pme/startups/noticias/kekanto-recebe-aporte-da-w7-brazil-capital
2013/01 ContaAzul Raised undisclosed Monashees Capital, Ribbit Capital, Napkn Ventures Saas (financial) http://startups.ig.com.br/2013/conta-azul-recebe-investimento-de-monashees-500startups-ribbit-e-napkn/
2013/01 Meia Bandeirada Raised undisclosed Plug n’ Work Consumer web
2013/01 Escolher Seguro Raised undisclosed Warehouse Investimentos Consumer web
2013/01 PC sistemas Acquired BRL 95m TOTVS ERP http://fusoesaquisicoes.blogspot.com.br/2013/01/totvs-adquire-pc-sistemas-por-r-95.html
2013/01 Padtec Raised BRL 167,000,000 BNDES, IDNT networking infrastructure http://fusoesaquisicoes.blogspot.com.br/2013/01/padtec-tera-aporte-de-r-167-milhoes.html
2013/01 uMov.me Raised BRL 3,200,000 TOTVS Mobile http://fusoesaquisicoes.blogspot.com.br/2013/01/totvs-investira-ate-r-32-milhoes-na.html
2013/01 Crowd.Mobi raised funds from BRL 300,000 João Kepler Braga Mobile http://crowdmobi.com.br/
2013/01 Widbook Raised undisclosed W7 Brazil Capital Consumer web http://startups.ig.com.br/2013/rede-social-de-publicacao-literaria-widbook-recebe-investimento-da-w7-capital/

Tabela 1: Fontes de financiamento

O Fim da Trama e porque o Youtube jamais aconteceria no Brasil

Publicação no site da Trama informando o fim do serviço

O assunto de hoje é um pouco triste para aqueles que, como eu, tentam ser empreendedores em um país burocrático e pouco orgulhoso de si mesmo como o Brasil. O serviço de download de músicas Trama Virtual vai fechar as portas. É provável até que quando você estiver lendo essa notícia e clicar no link do site ele já não esteja mais funcionando. A notícia do contexto do fechamento pode ser encontrada no Gizmodo ou ainda é possível ler uma entrevista completa com João Marcelo Bôscoli, fundador da Trama e idealizador do serviço, no site da Folha.

Não quero explicar muito o que era o Trama Virtual porque nos links acima encontrarão pessoas mais qualificadas que já o fizeram com bastante competência. Contudo, como sei que tem muita gente que não quer ler o link acima, vou tentar resumir o que eles faziam. Sabe o iTunes, aquele que os fanáticos pela Apple adoram? Agora imagine serviço igual só que tudo de graça. Agora imagine um serviço que incluísse somente bandas nacionais, principalmente aquelas que não têm nenhuma gravadora, ou seja, as bandas independentes. Isso era a Trama Virtual.

Hoje posso trabalhar com exemplos pois eles existem aos montes, e a maioria surgiu nos últimos 3 ou 4 anos. Só que todos eles (todos, sem exceção) são posteriores à Trama Virtual, serviço de Internet que começou em 2002! no Brasil. Sim, o serviço já possui mais de dez anos. Agora pense: você tinha Internet em 2002? Sim, os que tinham eram poucos, e dá pra imaginar só por aí o quão à frente do seu tempo ele foi. Não é exagero dizer que ele foi revolucionário, principalmente por implementar, desde o início, um modelo de negócios que envolvia a remuneração por download da música. O sistema, vejam você, é muito parecido com o utilizado pelo Google hoje no Youtube.

A questão importante que precisamos discutir aqui é: por que ele acabou? A resposta parece simples, pois o serviço ia simplesmente parar de ser lucrativo para a Trama. Ao invés de ficar consumindo recursos da empresa, é melhor encerrar o serviço ao perceber que ele não está mais dando lucro. Não parece óbvio pra você que algo deve ser fechado ao não dar mais lucro? Pois bem, pois saibam que a maior parte dos serviços de Internet passa muito tempo, às vezes até anos, sem dar lucro. Sabe quem ficou muitos anos sem ter lucro operacional? Dois serviços pequenos que vocês provavelmente conhecem: Google e facebook. Por que então é possível a eles ficar no ar sem dar dinheiro e o Trama Virtual precisa fechar as portas?

Essa é uma discussão das mais importantes e deve ser feita com muito cuidado, pois se não resolvermos esse problema dificilmente deixaremos de ser um país subdesenvolvido. Empresas que não dão lucro só podem se manter com a utilização de capital de risco. Para quem não sabe do que se trata, tente imaginar o seguinte cenário: você trabalhou a vida inteira e conseguiu juntar uma grana, digamos uns R$ 50.000,00. Você sabe que esse dinheiro não é suficiente para se manter a vida inteira depois que se aposentar, então o que você precisa fazer? Claro, tem que dar um jeito de multiplicar esse dinheiro e garantir sua aposentadoria.

Você é apresentado então a um amigo seu que é cientista, que teve uma ideia genial para produzir uma espécie de monitor flexível, para o qual ele já tem até um protótipo funcional. Contudo, para poder ganhar dinheiro com o monitor será necessário produzi-lo em larga escala, e para fazê-lo ele vai precisar justamente dos R$ 50.000,00 que você tem. Você, esperto como é e utilizando seu faro empreendedor, decide que vai dar suas economias para o seu amigo abrir o negócio, e em troca ele vai te dar um pedaço da futura empresa, digamos 35%.

Vamos supor que a ideia dê certo. A empresa começa a produzir em larga escala, o produto vende muito e logo no final do primeiro ano vocês obtêm um faturamento de R$ 200.000,00. Nesse momento, aparece uma “pequena” empresa chamada Samsung, percebe o potencial do seu produto e diz que quer comprar um pedaço da sua empresa. Por entender o valor do negócio, ela oferece R$ 1 milhão por 35% do negócio, a mesma quantia que você possui. Se você quiser vai poder sair do negócio um ano depois os R$ 35.000,00 que você investiu se transformaram “magicamente” em R$ 1 milhão. Agora você pode começar a pensar em se aposentar com esse dinheiro, certo?

O que acontece contudo se a ideia der errado? E se o produto não der certo, a empresa fechar e você não conseguir recuperar o que investiu? Sim, você perdeu todo o seu dinheiro e ainda tem a grande chance de ter adquirido o famoso passivo, ou seja, a empresa fechou e deixou dívidas para você e para o seu sócio. Por isso o capital é chamado de risco: pode dar certo, mas se der errado o dinheiro simplesmente desaparece.

Existem vários documentários que mostram a história do Google, e as dificuldades que eles tiveram por surgir justamente na época da bolha da Internet, e sugiro que você veja a série de documentários do Discovery sobre a Internet, provavelmente a melhor referência sobre o tema. Na história eles tinham uma grande ideia para um serviço de busca, e tinham até apresentado ao orientador deles na Universidade, mas faltava o mais importante: dinheiro para construir um serviço em escala global. Para que o Google funcionasse eles precisavam fazer o download de TODA A INTERNET para um grupo de computadores. Se hoje a tarefa é difícil, imaginem como era em 2004. O que aconteceu então? Um investidor, ao entender a importância do negócio proposto, entregou para eles um cheque de US$ 500.000,00 para investir no que achassem necessário. O resto é história.

Já o facebook e sua história ficaram famosos através do filme e não compensa nem explorar muito. Se repararem no exemplo dos R$ 50.000,00 que dei anteriormente, foi mais ou menos essa quantia que Eduardo Saverín utilizou para abrir a primeira conta da empresa facebook. Hoje o jovem rapaz está no ranking da Forbes como um dos 23 jovens bilionários do mundo. Nada mal para algumas pequenas economias, não é mesmo?

Agora a pergunta que eu queria fazer desde o começo do post: sabe quando um caso desses aconteceria no Brasil? A resposta é: NUNCA! O Youtube nada mais era do que uma ideia da cabeça de alguns jovens, até ser comprado pelo Google por US$ 1,65 bilhão. Se o Brasil tivesse a mesma estrutura de capital dos EUA, a Trama Virtual poderia facilmente ser o Youtube brasileiro. Acha exagero? O serviço surgiu pelo menos 3 anos antes no Brasil, e na entrevista à folha que citei acima João Marcelo Bôscoli fala que, com a chegada do Youtube, as bandas têm um canal de comunicação com o público melhor do que o Trama Virtual, e não precisam mais do serviço. Ou seja: as bandas estão trocando o serviço nacional pelo Youtube. Por quê? por que o serviço não evoluiu e conseguiu se tornar maior.

O fato é que tudo isso envolve dinheiro, e no Brasil é impossível atingir a mesma escala que nos EUA, simplesmente porque lá circula mais dinheiro. Aí alguns me dirão: mas existem casos de empreendedores nacionais como Marco Gomes e Bel Pesce que cresceram através da utilização de capital de risco. E todos estarão certos. Vale lembrar que o marco Gomes, assim como nós, também é Calango. Não deveríamos então nos orgulhar deles e acreditar que os negócios podem dar certo no Brasil?

Infelizmente, posso afirmar que os dois deram certo muito mais apesar do Brasil do que graças a ele. A história do Marco Gomes é muito boa, e recomendo que escutem e leiam pois é um excelente exemplo, mas o fato é que o capital que a empresa dele usou para sair do papel veio de empresas internacionais. Teve zero de aporte inicial em capital nacional. Já a Bel Pesce, tive o prazer de estar em uma palestra dela, e até me incomodou um pouco em ver como sua fala, que parte do princípio que é possível realizar todos os sonhos, tem como base o sonho de sair do Brasil para poder dar certo. Sim, ela só conseguiu tudo na vida porque foi morar no Vale do Silício.

Pois eu sou brasileiro, Calango do Cerrado, e não quero ter que sair do Brasil para ter a oportunidade de dar certo. Alguns me dirão que Brasília não é pra isso, que todo mundo aqui quer ser funcionário público, e estarão certos. Contudo, acredito que a cidade tem um enorme potencial não explorado na área de informática, muitas mentes brilhantes tendo ideias o tempo todo, enfim, temos condições de fazer algo até melhor que o Vale do Silício nacional. Só nos falta uma coisa: dinheiro. Depender de instituições como FINEP para construir algo inovador é simplesmente ridículo e um verdadeiro desperdício de dinheiro público. O Governo não deve nunca, em essência, ser responsável por obter lucro através de empresas, mas sim de criar um ambiente gerador de empregos onde seja possível fazer empresas tão grandes ou até maiores que o Youtube.

Infelizmente, pelo caso da Trama vemos que o Youtube jamais seria brasileiro. Fico mais triste porque sempre considerei o modelo de negócios inovador, e até citei o caso na minha monografia. Vemos ainda, em casos como o da Bel Pesce, que para dar certo temos que sair do Brasil e buscar o dinheiro lá fora. Contudo, a boa notícia é: todos esses casos pertencem ao passado. O futuro está no computador da próxima ideia genial, que acredito poder sim sair de Brasília. Se um dia eu sair do Brasil em definitivo, é porque eu desisti. É por isso que eu continuo acreditando. E esperando…

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