O Fim da Trama e porque o Youtube jamais aconteceria no Brasil

Publicação no site da Trama informando o fim do serviço

O assunto de hoje é um pouco triste para aqueles que, como eu, tentam ser empreendedores em um país burocrático e pouco orgulhoso de si mesmo como o Brasil. O serviço de download de músicas Trama Virtual vai fechar as portas. É provável até que quando você estiver lendo essa notícia e clicar no link do site ele já não esteja mais funcionando. A notícia do contexto do fechamento pode ser encontrada no Gizmodo ou ainda é possível ler uma entrevista completa com João Marcelo Bôscoli, fundador da Trama e idealizador do serviço, no site da Folha.

Não quero explicar muito o que era o Trama Virtual porque nos links acima encontrarão pessoas mais qualificadas que já o fizeram com bastante competência. Contudo, como sei que tem muita gente que não quer ler o link acima, vou tentar resumir o que eles faziam. Sabe o iTunes, aquele que os fanáticos pela Apple adoram? Agora imagine serviço igual só que tudo de graça. Agora imagine um serviço que incluísse somente bandas nacionais, principalmente aquelas que não têm nenhuma gravadora, ou seja, as bandas independentes. Isso era a Trama Virtual.

Hoje posso trabalhar com exemplos pois eles existem aos montes, e a maioria surgiu nos últimos 3 ou 4 anos. Só que todos eles (todos, sem exceção) são posteriores à Trama Virtual, serviço de Internet que começou em 2002! no Brasil. Sim, o serviço já possui mais de dez anos. Agora pense: você tinha Internet em 2002? Sim, os que tinham eram poucos, e dá pra imaginar só por aí o quão à frente do seu tempo ele foi. Não é exagero dizer que ele foi revolucionário, principalmente por implementar, desde o início, um modelo de negócios que envolvia a remuneração por download da música. O sistema, vejam você, é muito parecido com o utilizado pelo Google hoje no Youtube.

A questão importante que precisamos discutir aqui é: por que ele acabou? A resposta parece simples, pois o serviço ia simplesmente parar de ser lucrativo para a Trama. Ao invés de ficar consumindo recursos da empresa, é melhor encerrar o serviço ao perceber que ele não está mais dando lucro. Não parece óbvio pra você que algo deve ser fechado ao não dar mais lucro? Pois bem, pois saibam que a maior parte dos serviços de Internet passa muito tempo, às vezes até anos, sem dar lucro. Sabe quem ficou muitos anos sem ter lucro operacional? Dois serviços pequenos que vocês provavelmente conhecem: Google e facebook. Por que então é possível a eles ficar no ar sem dar dinheiro e o Trama Virtual precisa fechar as portas?

Essa é uma discussão das mais importantes e deve ser feita com muito cuidado, pois se não resolvermos esse problema dificilmente deixaremos de ser um país subdesenvolvido. Empresas que não dão lucro só podem se manter com a utilização de capital de risco. Para quem não sabe do que se trata, tente imaginar o seguinte cenário: você trabalhou a vida inteira e conseguiu juntar uma grana, digamos uns R$ 50.000,00. Você sabe que esse dinheiro não é suficiente para se manter a vida inteira depois que se aposentar, então o que você precisa fazer? Claro, tem que dar um jeito de multiplicar esse dinheiro e garantir sua aposentadoria.

Você é apresentado então a um amigo seu que é cientista, que teve uma ideia genial para produzir uma espécie de monitor flexível, para o qual ele já tem até um protótipo funcional. Contudo, para poder ganhar dinheiro com o monitor será necessário produzi-lo em larga escala, e para fazê-lo ele vai precisar justamente dos R$ 50.000,00 que você tem. Você, esperto como é e utilizando seu faro empreendedor, decide que vai dar suas economias para o seu amigo abrir o negócio, e em troca ele vai te dar um pedaço da futura empresa, digamos 35%.

Vamos supor que a ideia dê certo. A empresa começa a produzir em larga escala, o produto vende muito e logo no final do primeiro ano vocês obtêm um faturamento de R$ 200.000,00. Nesse momento, aparece uma “pequena” empresa chamada Samsung, percebe o potencial do seu produto e diz que quer comprar um pedaço da sua empresa. Por entender o valor do negócio, ela oferece R$ 1 milhão por 35% do negócio, a mesma quantia que você possui. Se você quiser vai poder sair do negócio um ano depois os R$ 35.000,00 que você investiu se transformaram “magicamente” em R$ 1 milhão. Agora você pode começar a pensar em se aposentar com esse dinheiro, certo?

O que acontece contudo se a ideia der errado? E se o produto não der certo, a empresa fechar e você não conseguir recuperar o que investiu? Sim, você perdeu todo o seu dinheiro e ainda tem a grande chance de ter adquirido o famoso passivo, ou seja, a empresa fechou e deixou dívidas para você e para o seu sócio. Por isso o capital é chamado de risco: pode dar certo, mas se der errado o dinheiro simplesmente desaparece.

Existem vários documentários que mostram a história do Google, e as dificuldades que eles tiveram por surgir justamente na época da bolha da Internet, e sugiro que você veja a série de documentários do Discovery sobre a Internet, provavelmente a melhor referência sobre o tema. Na história eles tinham uma grande ideia para um serviço de busca, e tinham até apresentado ao orientador deles na Universidade, mas faltava o mais importante: dinheiro para construir um serviço em escala global. Para que o Google funcionasse eles precisavam fazer o download de TODA A INTERNET para um grupo de computadores. Se hoje a tarefa é difícil, imaginem como era em 2004. O que aconteceu então? Um investidor, ao entender a importância do negócio proposto, entregou para eles um cheque de US$ 500.000,00 para investir no que achassem necessário. O resto é história.

Já o facebook e sua história ficaram famosos através do filme e não compensa nem explorar muito. Se repararem no exemplo dos R$ 50.000,00 que dei anteriormente, foi mais ou menos essa quantia que Eduardo Saverín utilizou para abrir a primeira conta da empresa facebook. Hoje o jovem rapaz está no ranking da Forbes como um dos 23 jovens bilionários do mundo. Nada mal para algumas pequenas economias, não é mesmo?

Agora a pergunta que eu queria fazer desde o começo do post: sabe quando um caso desses aconteceria no Brasil? A resposta é: NUNCA! O Youtube nada mais era do que uma ideia da cabeça de alguns jovens, até ser comprado pelo Google por US$ 1,65 bilhão. Se o Brasil tivesse a mesma estrutura de capital dos EUA, a Trama Virtual poderia facilmente ser o Youtube brasileiro. Acha exagero? O serviço surgiu pelo menos 3 anos antes no Brasil, e na entrevista à folha que citei acima João Marcelo Bôscoli fala que, com a chegada do Youtube, as bandas têm um canal de comunicação com o público melhor do que o Trama Virtual, e não precisam mais do serviço. Ou seja: as bandas estão trocando o serviço nacional pelo Youtube. Por quê? por que o serviço não evoluiu e conseguiu se tornar maior.

O fato é que tudo isso envolve dinheiro, e no Brasil é impossível atingir a mesma escala que nos EUA, simplesmente porque lá circula mais dinheiro. Aí alguns me dirão: mas existem casos de empreendedores nacionais como Marco Gomes e Bel Pesce que cresceram através da utilização de capital de risco. E todos estarão certos. Vale lembrar que o marco Gomes, assim como nós, também é Calango. Não deveríamos então nos orgulhar deles e acreditar que os negócios podem dar certo no Brasil?

Infelizmente, posso afirmar que os dois deram certo muito mais apesar do Brasil do que graças a ele. A história do Marco Gomes é muito boa, e recomendo que escutem e leiam pois é um excelente exemplo, mas o fato é que o capital que a empresa dele usou para sair do papel veio de empresas internacionais. Teve zero de aporte inicial em capital nacional. Já a Bel Pesce, tive o prazer de estar em uma palestra dela, e até me incomodou um pouco em ver como sua fala, que parte do princípio que é possível realizar todos os sonhos, tem como base o sonho de sair do Brasil para poder dar certo. Sim, ela só conseguiu tudo na vida porque foi morar no Vale do Silício.

Pois eu sou brasileiro, Calango do Cerrado, e não quero ter que sair do Brasil para ter a oportunidade de dar certo. Alguns me dirão que Brasília não é pra isso, que todo mundo aqui quer ser funcionário público, e estarão certos. Contudo, acredito que a cidade tem um enorme potencial não explorado na área de informática, muitas mentes brilhantes tendo ideias o tempo todo, enfim, temos condições de fazer algo até melhor que o Vale do Silício nacional. Só nos falta uma coisa: dinheiro. Depender de instituições como FINEP para construir algo inovador é simplesmente ridículo e um verdadeiro desperdício de dinheiro público. O Governo não deve nunca, em essência, ser responsável por obter lucro através de empresas, mas sim de criar um ambiente gerador de empregos onde seja possível fazer empresas tão grandes ou até maiores que o Youtube.

Infelizmente, pelo caso da Trama vemos que o Youtube jamais seria brasileiro. Fico mais triste porque sempre considerei o modelo de negócios inovador, e até citei o caso na minha monografia. Vemos ainda, em casos como o da Bel Pesce, que para dar certo temos que sair do Brasil e buscar o dinheiro lá fora. Contudo, a boa notícia é: todos esses casos pertencem ao passado. O futuro está no computador da próxima ideia genial, que acredito poder sim sair de Brasília. Se um dia eu sair do Brasil em definitivo, é porque eu desisti. É por isso que eu continuo acreditando. E esperando…

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