Somos Tão Jovens descendo pra Colina

Poster do filme

Desci para comprar pão. Poderia ser apenas mais um dia (e seria), mas no caminho para a “Biroska” encontro uma galera tomando Cuba Libre e ouvindo Rock’n Roll. Sou mais da turma do pagode, mas a galera está lá e eu tô sem nada pra fazer, então aceito ficar ali uns minutos.

Vinte minutos e quatro Cubas Libres depois (feitas com Montilla, sempre bom frisar) estou completamente bêbado. Já não sei mais onde estou nem para onde vou, mas decido caminhar com a galera até o bosque. No caminho, já sabendo que vão todos “fumar um”, paro e olho para a manilha de esgoto que está ali desde sempre. O que estariam fazendo eles dez anos atrás naquele mesmo lugar?

Pausa dramática na entrada do bosque para reverenciar o A de Anarquia. Fecho os olhos e por um instante vejo Renato Russo, Fê e Flávio Lemos sentados falando coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar. Estão mais uma vez ensaiando. Era o Aborto Elétrico, sentado ali, na minha frente, naquele mesmo lugar.

Olho para o lado e estou na sala de cinema. Uma música e outra interrompem a viagem no tempo e me trazem de volta à realidade. Qual realidade? Estou agora debaixo do bloco, perto do Cine Karim, depois em um boteco qualquer. Logo voltamos para a Colina. É de noite, a fogueira está acesa, alguém puxa um violão, vem o frio da seca… Afinal, onde estou? Onde estavam?

É nesse ponto que o filme deixa de acontecer somente na tela do cinema: ele invade minha vida, se mistura com a minha realidade, visita a minha casa. Eu abro a porta do coração e deixo ele entrar. Era a galera do Renato, do Flávio, do Fê, mas poderia ser a minha. Como quase todo o mundo na época, o cinema “desce pra Colina” e retrata a realidade de uma juventude genial e, sem dúvidas geniosa.

O produto do ócio quase sempre leva às drogas, e o subproduto às vezes consegue emocionar. Conheci durante a infância em Brasília uma meia dúzia de aspirantes a Renato Russo, outros tantos irmãos como Fê e Flávio, encontrei o mítico punk da Colina (que ronda lá até hoje), mas nenhuma história foi tão bonita, tão intensa.

Eu sou Calango e amo Brasília; Somos Tão Jovens, o filme, é também uma declaração de amor à cidade. O retrato de uma juventude que, em plena ditadura militar, conseguiu fazer as críticas mais diretas à sua estrutura cruel e assassina, comandada pelos familiares e amigos de quem os denunciava. Mais do que um bom filme, trata-se do retrato de uma vida, de muitas vidas, da minha vida.

O filme me levou do êxtase puro ao choro quase incontrolável. Acessou a minha memória afetiva, colocou um espelho na minha vida e me mostrou como ela pode ser fútil e insossa, para em seguida ser interessante e intensa. Não se trata de apenas um filme: para quem nasceu e cresceu em Brasília, é como aquela foto que você quis tirar, pra depois de muitos anos poder lembrar do momento. Para um morador da Colina, é a catarse pura. Quantas pessoas têm suas casas retratadas de maneira tão bonita?

Chega aí, traz a pipoca e desce pra Colina você também.

Faroeste Caboclo: cinema de Cordel?

Cartaz_faroeste_caboclo

Ao chegar no cinema desvairado

Com o coração alucinado

Ao ver meu sonho desenhado

Caí do cavalo

Pensando no Cordel como o Rei do Cangaço

É no ritmo do Cordel que começo falando sobre Faroeste Caboclo, sem dúvidas uma das obras de cinema mais esperadas de todos os tempos em Brasília. O lindíssimo filme Somos Tão Jovens, que pretendo abordar em breve por aqui mas ainda não consegui transpor para o computador, foi uma grata surpresa, pois eu nem sequer sabia que ele estava sendo produzido. Faroeste Caboclo é aquela história que aprendemos a cantar e esperamos a vida inteira para alguém ter a coragem de transpô-la para o cinema.

Do alto de minha ignorância pequeno burguesa digna da Geração Coca-cola tive problemas em me adaptar ao filme, desde a escolha do ator principal até o ritmo das cenas, muito diferente do cinema que cresci acostumado a consumir. A obra é algo diferente, original, ao mesmo tempo irritante e intrigante, tendo seu ápice no desenho dos pequenos detalhes. Por isso não consegui  entender o que se passava quando entrei no cinema: me apeguei aos detalhes errados.

Nunca imaginei João de Santo Cristo como um negão; a imagem dele pra mim era o Matheus Nachtergaele, o típico nordestino. Contudo, logo no começo o filme dá um tapa na cara das minhas pretensões, ao apresentar a realidade que tanto conheço do drama familiar típico das famílias que têm origem no Nordeste: seca, fome, violência.

Mas não foi ali que entendi (ainda) o que se passava: o primeiro encontro entre Maria Lúcia e João de Santo Cristo não teve o clima de comédia romântica hollywoodiano que estamos acostumados. Tudo o que cercava a cena era diferente: a fotografia, a música (brilhantemente assinada por Phillipe Seabra), o andamento, enfim, logo vi que não se tratava de mais do mesmo. Quando veio a primeira cena de amor, entendi finalmente do que se tratava o filme.

Há alguns anos, em uma festa junina embaixo do meu prédio, fui apresentado meio de supetão à Literatura de Cordel em forma de dança. Na simplicidade dos movimentos e da poesia rimada, me lembrei que no Brasil somos capazes de fazer coisas realmente incríveis. A quadrilha que se apresentava não era composta de intelectuais ou artistas formados, mas a rima que vi ali envolveu meu coração de tal forma que não creio que sou capaz de sentir novamente algo sequer próximo daquilo. É algo que só poderia ter acontecido aqui, no Brasil, vindo daquelas pessoas humildes e geniais.

Em nenhum outro país do mundo poderia ter sido produzido um filme como faroeste caboclo. Em muitos momentos me vi dentro do velho oeste americano, mas que se passava na Ceilândia. As referências são tão sutis que só podem ser percebidas assim, nos detalhes. Para quem mora em Brasília e é Calango, João de Santo Cristo sorrindo ao ver as luzes de Natal é uma referència à infância iluminada pela Esplanada dos Ministérios. Contudo, até nisso o filme consegue ser original, fugindo do lugar comum das propagandas com Papai Noel e crianças sorrindo.

Faroeste Caboclo é um filme corajoso, original e lapidado nos detalhes. É um presente à memória de Renato Russo que, sensível como era, certamente teria se emocionado com a materialização de sua história. Sempre fico até o final dos créditos com minha esposa porque ela gosta de saber quem está fazendo o filme; foi a primeira vez na vida que, quando olhei para o lado, a sala ainda estava lotada.

Obrigado aos idealizadores por tamanha ousadia e por tão original produto. É um filme diferente, único, poético, produto de quem é (mesmo sem saber) Calango do Faroeste do Cerrado.

Músicas ao contrário não invocam o Satanás???

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Quem me conhece sabe que não sou fã de séries de TV, mas tem uma série que tem me chamado a atenção. É a série Da Vinci’s Demons, no Brasil exibida pela Fox. E o que mais tem me chamado a atenção nessa série é a música, a trilha é excelente. Fiz uma pesquisa e descobri que o arranjo é de Bear McCreary, que também é compositor da série Walking Dead. Em Da Vinci’s Demons ele fez uma boa trilha, que combina com a abertura da série:

Leonardo Da Vinci usava um truque em que escrevia de trás para frente e invertido, só com um espelho o texto fazia sentido. E aprofundando mais a minha pesquisa descobri que Bear McCreary fez algo semelhante. McCreary compôs o tema em um palíndromo, onde tocando de trás para frente a música soa da mesma forma. Mas músicas ao contrário não invocam o Satanás??? Neste post aqui ele explica em detalhes a técnica.

Alguém reverteu a abertura e veja como fica evidente o efeito:

Poucos telespectadores tomarão conhecimento disso, será que vale a pena tanto trabalho? Eu só sei de uma coisa… Muito obrigado Bear McCreary por ter me ensinado algo novo no dia de hoje!

O Mundo das Cervejas Especiais

cervejas

A cerveja é muito mais do que “clara” ou “escura”. Existe uma grande complexidade por trás dessa bebida milenar, tão consumida mundialmente.

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Basicamente, temos as populares cervejas pilsen (ou pilsener, estilo originado da cidade de Pilsen, situada na região da Boêmia, na atual República Checa), que é um tipo de cerveja de baixa fermentação e produzida em grande escala. A simplicidade para por aí.

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Em 23 de abril de 1516, foi promulgada a lei de pureza da cerveja, a lei Reinheitsgebot, pelo duque Guilherme IV da Baviera. Essa lei instituiu que a cerveja deveria ser fabricada apenas com água, malte de cevada e lúpulo. Até hoje, essa lei é seguida, para se ter uma cerveja puro malte.

 

 

No entanto, a cerveja é, a meu ver, a bebida de aromas e sabores mais complexos. Isso, porque, além da lei de pureza da cerveja, ainda existe uma grande diversidade de estilos de cervejas, com diferentes ingredientes que conferem a essa bebida, sabores únicos e muito distintos.

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Em mosteiros, para enfrentar o período de jejum, os monges se alimentavam de cerveja, que era e ainda é chamada de pão líquido. A concentração de ingredientes faziam com que a cerveja sustentasse os monges, em seus jejuns. Muitas cervejas, famosas pelo mundo todo, são produzidas em mosteiros. Mas existem apenas 8 cervejas trapistas (reconhecidas como tal), produzidas por mosteiros trapistas: 6 na Bélgica, 1 na Holanda e 1 na Áustria.

 

Os estilos variam, de acordo com os ingredientes utilizados e a forma de produção. Também existem estilos tradicionais e estilos que vêm surgindo, de alguns anos para cá. No Brasil, por exemplo, temos cervejas produzidas com ingredientes genuinamente brasileiros, como a mandioca (ou aipim ou macaxeira). Também existem cervejas exóticas, pelo mundo, com ingredientes inusitados, como bacon, peixe, leite etc.

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Aos que gostam de cervejas mais amargas, a adição generosa do lúpulo é bem vinda. Para medir o amargor da cerveja, existe uma escala, chamada de IBU (International Biterness Unit). Quanto maior o IBU, mais amarga é a cerveja, ou seja, mais lúpulo em sua composição.

As cervejas escuras (diferente das malzbiers, que tem sua coloração escura devido a adição de caramelo e xarope de açúcar), tem sua coloração, devido a adição de maltes tostados. Sua produção também é bem diversificada, pois a combinação de outros ingredientes formam estilos diferentes.

Dentre as cervejas claras, existem as de trigo (que também podem ter suas versões escuras). Ao contrário do que muitos pensam, as cervejas de trigo também levam, em sua composição, a cevada. As cervejas de trigo trazem um leve sabor e aroma de banana e cravo, que são conferidos, devido ao fermento utilizado em sua fabricação.

Para cada estilo de cerveja, existe uma nomenclatura que a caracterize. Existem termos que especificam certos ingredientes ou a forma de produção, que se combinam para informar o estilo específico de cada cerveja. Também existem cervejas tão exclusivas, que têm seu estilo originado da própria cervejaria. Este é um assunto tão extenso, que merece um texto específico.

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Entrando no mérito da degustação, existem vários pontos importantes a serem adotados. Primeiro, que cada estilo tem uma temperatura ideal. Quem entra no mundo da cervejas especiais, deve esquecer a ideia de cerveja estupidamente gelada. Quanto mais estupidamente gelada, menos sabores serão notados. Isso, porque a baixa temperatura disfarça e esconde os sabores. A qualidade das cervejas populares é tão baixa, que, para disfarçar isso, elas são consumidas em baixíssimas temperaturas. Refrescantes, podem, se consumidas em uma temperatura um pouco mais elevadas, chegam a não “descer redondo”.

Entendendo as temperaturas ideais para cada estilo, entramos no mérito do recipiente utilizado para servir a bebida. Cada estilo pede um tipo de copo ou taça diferente. As diferenças de tamanhos e formatos ajudam a melhorar a percepção dos aromas e da formação da espuma (ou creme). Esse assunto também merece um texto específico, pois, assim como existe uma grande diversidade de estilos de cervejas, existe uma grande diversidade de taças e copos.

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Cada estilo de cerveja também tem sua harmonização. A combinação da cerveja com alguma comida torna a experiência bem proveitosa, uma vez que alguns estilos se tornam bem mais interessantes, se combinados com algum tipo de comida.

Seguindo todas as orientações para degustar uma cerveja, sua apreciação será muito mais interessante. É como um ritual. Não é à toa que existem os sommeliers de cerveja. Cada estilo de cerveja tem sua peculiaridade e, sabendo respeita-la, a cerveja saberá compensar seu apreciador.

O que você prefere, ser uma testemunha passiva ou um agente ativo?

O que você prefere, ser uma testemunha passiva ou um agente ativo

O que você prefere, ser uma testemunha passiva ou um agente ativo

Muitos acham que para ser famoso no Brasil basta ter uma bunda, saber rebolar ou falar muita sacanagem, mas no ano passado Isadora Faber nos provou o contrário. Com apenas 13 anos ela criou a página Diário de Classe, onde denuncia o estado deplorável de sua escola. Com isso, Isadora ganhou notoriedade nacional, sofreu represália por parte da direção da escola, foi ameaçada de morte e foi odiada por muitos na Internet. Outras pessoas não a odiaram, mas a invejaram. Pessoas que não produzem nada, além de memes se revoltaram ao ver uma menina de 13 anos ganhando holofotes que eles imaginavam ser deles.

Várias pessoas tentam imitar Isadora  e muitos desses imitadores querem apenas a “fama” que ela conquistou e não percebem que também estão sendo úteis. O trabalho de Isadora, claro, não é único e nem pioneiro, ele é apenas resultado da sociedade de informação dos últimos anos, onde a maioria das pessoas querem ser famosas e geradores de conteúdo. Basta a nós escolhermos sermos testemunhas ou nos tornarmos agentes ativos de nossas vidas.

Quer mais um exemplo? Zachary Maxwell, 11 anos e morador de Nova York. Em 2011 ele pedia a seus pais que queria levar lanche para a escola, ao invés de comer a merenda oferecida. Os pais não concordaram, eles não tinham noção da comida servida. Então Zachary pegou uma câmera e começou a filmar discretamente as refeições, armazenou seis meses de filmagens e fotos e mostrou tudo aos pais. As imagens não mentem, veja um exemplo da merenda oferecida na escola de Zachary:

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Ao invés de serem meras testemunhas passivas e não prestarem atenção, afinal ele é apenas uma criança, ou o mandar parar de arrumar confusão com a direção da escola, os pais de Zachary compraram a ideia e prepararam uma estrutura de produção na sala da família.

yuck

O resultado foi Yuck – O Filme, um documentário de 20 minutos sobre a merenda escolar de Nova York. Zachary está sendo chamado de O Michael Moore da Escola Primária, e o filme já ganhou prêmios, além de ter sido selecionado pro Festival de Cinema Independente da Cidade de Nova York. Veja o trailer do documentário:

Agora os chatos de plantão reclamam por ele ter feito alguma coisa, ao invés de ficar calado. Esse é o mal da sociedade, achar que prestar um serviço é estar fazendo um favor. As mídias sociais estão aí para todos. Basta a nós escolhermos amplificar a voz dos idiotas ou amplificar o grito dos excluídos, mas criativos. E sejamos atentos, principalmente com as crianças.

Zachary e seus pais poderiam apenas protestar, mas preferiram ser criativos. Isso só me faz lembrar o ideal de Steve Jobs:

Interesse ou revolução?

Zack Braff

Zack Braff

Zack Braff é um ator reconhecido, principalmente pelo seu papel na série Scrubs. Ele tentou produzir um filme pequeno, mas teve impedimentos financeiros. A saída foi usar o Kickstarter, site onde pessoas apresentam projetos e pedem financiamento coletivo. Ele pediu US$2 milhões, aceitando contribuições a partir de US$1,00.

Os fãs estão contribuindo e faltando quatro dias para encerrar a arrecadação ele já tem US$ 2,67 milhões. Críticos estão protestando dizendo que é injusto Zack Braff usar o serviço, que deveria ser uma ferramenta para pessoas comuns, para conseguir dinheiro. Ele é um ator de Hollywood e não teria impedimentos em utilizar os canais convencionais.

Zack afirmou que o serviço está disponível para todos, e os fãs têm direito de escolher onde vão gastar seu dinheiro. E se eles preferem financiar um filme de seu ator favorito, é a vontade deles. Essa iniciativa de Zack Braff trouxe um monte de novos membros para o Kickstarter, que por sua vez financiaram um monte de outros projetos, inclusive relativo à cinematografia.

Hoje qualquer pessoa com um smartphone pode fazer um filme, as ferramentas estão acessíveis a qualquer um, é claro que os custos ainda são altos em relação à produção, aí é que o Kickstarter pode fazer a diferença. E qualquer um pode usar o serviço que quiser, entre um sujeito sem nome e sem currículo, e um diretor que você goste e admira, pra quem vai o seu dinheiro? Eu, por exemplo, contribuiria para ver logo a próxima produção de O Hobbit.

Mas como tudo na vida tem o seu lado bom e ruim, o Kickstarter pode se transformar em um laboratório e fonte de renda, pedindo orçamentos altos. O fã financiaria um projeto e acabaria pagando duas vezes, ao comprar a entrada do cinema. É o que aconteceu no caso do Zack Braff, investidores convencionais injetaram mais grana, subindo o orçamento do filme para US$ 10 milhões, com os US$ 2,6 milhões das pessoas interessadas.

A verdade é que no papel é tudo muito lindo, mas na prática…

Trailer de Agente da S.H.I.E.L.D. que com certeza você não viu

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Os nerds estão polvorosos com “Agents of S.H.I.E.L.D”, nova série da ABC, vindo na rabeira de Vingadores, integrada no Universo Marvel e com o Agente Coulson. Se você não lê gibis, por favor, não reclame de terem ressuscitado o personagem.

Em 1998 foi a primeira intervenção da S.H.I.E.L.D na TV, algo horrível denominado “Nick Fury: Agent of S.H.I.E.L.D”. Com orçamento baixo, estrelado por David Hasselhoff e o roteirista é ninguém menos que David S. Goyer, criador da maravilhosa Da Vinci’s Demons. Sim, todo mundo já fez alguma merda na vida. Veja o trailer:

Agora compare com o que vem por aí:

Como é bom estar vivendo essa Era dos quadrinhos no cinema e na TV.

Brasília 1983, por Hermano Vianna

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Para quem assistiu o filme “Somos tão jovens”, eis aqui a famosa matéria de Hermano Jr., hoje mais conhecido como Hermano Vianna. O primeiro registro na imprensa fora da capital federal retratando a cena rock de Brasília. Foi a primeira reportagem falando das bandas Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial e XXX. A reportagem foi feita para a revista carioca Mixtura Moderna, editada pela Ana Maria Bahiana e pelo José Emílio Rondeau no Rio de Janeiro. Lá se vão 30 anos…

Ai de ti, Brasília
Da capital do poder e do tédio, uma injeção de energia para sacudir as rachaduras. O cerrado contra-ataca

Por Hermano Jr.

Quem diria! Os primeiros punks brasileiros nasceram em Brasília, à sombra do poder, e eram quase todos filhos de figuras importantes do governo federal. Se você for um punk paulista ou carioca que gastou suas poucas economias prá comprar a Mixtura Moderna certamente estará com ódio desta afirmação. Você pode queimar a revista ou, eu prefiro, escrever uma carta injuriada dizendo que eu não entendo nada de punk. Tudo bem, eu já li vários fanzines paulistas que me dizem o que é ser punk, o que é anarquia e até mesmo como usar uma suástica. Não tenho nada contra as etiquetas sociais. Mas também não posso fazer nada se desde 77 alguns brasilienses adotaram idéias, roupas e comportamentos punks. O que caracteriza cada um desses itens? Quem tem a verdade do punk? Provocados desta maneira o pessoal de Brasília me responde: punk não é uniforme, cara, é revolta. E revolta não é privilégio do proletariado paulista ou do subúrbio carioca. Punk é uma revolta sem planos de guerra detalhados, sem líderes estrategistas. Afinal, a proximidade do poder (se você ainda entende o poder como aquilo que acontece no Palácio do Planalto) não torna nem mais fácil, nem mais difícil, combatê-lo. É necessário sempre reformular as táticas, renegar os rótulos, destruir o lugar comum. Não é por um acaso que os brasilienses, anotem o que eu estou dizendo, fazem o rock mais ousado deste país.

Brasília é, desde a sua criação, causa das mais variadas polêmicas. Odiada por alguns, um sonho frustrado para outros, sua arquitetura continua a ser o símbolo máximo da ânsia modernista da alma brasileira (desde quando o Brasil tem alma?). Somos modernos e está acabado: vejam a capital que construímos. Não é de se estranhar que a construção de Brasília tenha se dado num governo que tinha por lema fazer o Brasil se desenvolver cinqüenta anos em cinco. O que é ou pra quem serve esse tal de desenvolvimento, ninguém sabe. Brasília tem 23 anos e nenhum plano urbanístico pôde prever o que já aconteceu nesse meio tempo. É uma cidade bonita? Não sei, num cartão postal até que impressiona. Mas morar lá é barra pesada. Brasília é fria, monótona, depressiva. A capital da esperança ocupa lugares de destaque em estatísticas pouco comuns: é o local, no Brasil, onde ocorrem mais suicídios e onde se consome mais drogas.

A característica principal da população brasiliense é a sua transitoriedade. Poucas são as pessoas que vão morar lá para sempre. Todos estão na cidade contando os dias que faltam para acabar o mandato ou chegar a s férias, quando voltarão para seus estados de origem. Por isso você não pode formar uma banda de rock, por exemplo, sem levar em conta que o guitarrista vai se mudar pro Rio no meio do ano, ou que o pai do baterista foi convidado para ser cônsul em Adis Abeba. Nada, exceto a mesquinharia da grande política nacional, tem continuidade em Brasília. Mas esta situação começa a mudar. Não é preciso nenhuma campanha tipo I love Brasília para saber que alguma transformação já está ocorrendo. Um ouvido um pouco mais atento consegue perceber a criação de um sotaque próprio de Brasília.

É uma mistura incrível de entonacões paulistas, cariocas, goianas, gírias de todos os lugares do país. As primeiras gerações que nasceram e se criaram no Distrito Federal já estão na casa dos 20 anos. São poucos, ainda, mas se os juntarmos com as outras pessoas, que moram há poucos anos em Brasília, mas que não estão afim de ficar o tempo todo reclamando da falta do que fazer, já teremos um bom número. Esta gang está produzindo filmes, poesia, música e teatro que falam sobre sua cidade. Existe um número surpreendente de grupos de rock já formados. Curiosa e sorrateiramente, Brasília adquire o título de capital brasileira do rock’n’roll. A segurança da arquitetura brasiliense apresenta suas primeiras rachaduras.

O grande impulso inicial para a “explosão” do rock brasiliense foi a formação, em 78, do grupo Aborto Elétrico. Em Brasília é muito mais fácil você ter acesso à s informações musicais de outros países. Tem sempre alguém viajando, um amigo que mora no exterior e que pode mandar um disco ou o New Musical Express para ler. Quando quase ninguém tinha ouvido falar de punk, o Aborto já tocava músicas influenciadas por Pistols, Dammed, Clash, etc. E não era só isso. Numa letra eles anunciavam, para quem quisesse ouvir, as suas intenções: “desde pequenos comemos o lixo comercial-industriaI/mas agora chegou a nossa vez/ vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês/ somos filhos da revolução/ somos burgueses sem religião/ nós somos o futuro da nação/ geração coca-cola”. O Aborto tocava em qualquer lugar, ao ar livre, na frente das lanchonetes, onde quer que pudesse conseguir emprestado uma tomada. Foram os anos mais radicais do punk brasiliense. Outras bandas surgiram motivadas pelo sucesso (não entendam essa palavra ao pé da letra) do Aborto Elétrico. Os nomes: Dado e o Reino Animal, Metralhaz, Os Vigaristas de Istambul (onde tocavam dois punks iugoslavos, filhos do embaixador daquele país) , Blitz 64, Blitx etc. Não consegui saber direito a história destes grupos, alguns duraram poucos meses, outros só conseguiram sobreviver no meio de uma troca interminável de músicos.

Hoje os nomes mudaram e se multiplicaram. Você pode conhecer os mais diversos estilos do rock contemporâneo escutando grupos como Elite Sofisticada, Gestapo, Las Conchas de Su Madre, Banda 69, Bambino e os Marginais, CIA, Fusão, Raízes da Cruz. Você pode ainda se surpreender com o jazz do Artimanha, ou como som inclassificável do Liga Tripa. Mas os grupos de rock mais interessantes de Brasília são: Capital Inicial, Legião Urbana, XXX e Plebe Rude. O Legião Urbana (Renato Russo, baixo e vocal; Marcelo Bonfá, bateria; Dado Villa-Lobos, guitarra) tem apenas meio ano de vida, mas todos os seus componentes já tocaram em outras bandas. Renato Russo é talvez o músico mais experiente do rock de Brasília. Autor da maioria das músicas do Aborto Elétrico, com o final deste grupo ele partiu para uma rápida carreira solo, acompanhado única e exclusivamente por seu violão.

Renato, dono de uma voz poderosa, é o primeiro grande cantor do rock nacional. Também letrista de grande originalidade (“estou cansado de ouvir falar em/ Freud Jung Engels Marx, intrigas intelectuais/ rodando em mesa de bar”), seus temas e imagens são uma reação direta às metáforas estúpidas que dominaram a nossa música popular em todo o decorrer dos anos 70. Ninguém quer mais ouvir falar em sensações das cordilheiras! A música do Legião Urbana está muito próxima do som de grupos como Joy Division, Public Image e Cure, suas principais influências.

O Capital Inicial (Heloisa, guitarra; Loro, guitarra; Flavio Lemos, baixo; Fê, bateria) já foi chamado pelas más línguas de Talking Heads do Planalto; pra mim, isso é elogio. Mas o apelido não tem muito a ver. O Talking Heads é apenas uma das influências, talvez de destaque, numa lista que inclui Cure, U2, Gang of Four, funks e baião. O trabalho das duas guitarras é fundamental para a caracterização do som do grupo. Nada de solos. Seu espaço é preenchido com riffs funky e acordes preciosos. Os vocais são feitos principalmente (pois todos cantam) pelos dois guitarristas. As letras, na sua maioria compostas pelo baterista Fê, que também foi do Aborto Elétrico, são agudas reflexões sobre o cotidiano da juventude brasiliense. Nada escapa (“quero soltar bombas no Congresso/ fumo Hollywood para o meu sucesso/ sempre assisto a Rede Globo/ com uma arma na mão/ se aparece o Francisco Cuoco/ adeus televisão“), nem mesmo a figura de Dom Bosco, um místico que sonhou profeticamente com a construção de Brasília (“O mal já esta feito/ deve existir algum jeito/ que tal elegermos um prefeito/ e matá-lo com um tiro no peito?“).

Estas letras já deram o que falar. É óbvio que a maioria não passou na censura. Mas não fica por aí. O Plebe Rude (André Mueller, baixo; Philippe Seabra, guitarra: Gutje Woorthmann, bateria; Ameba, Ana e Marta, vocais) foi preso em Patos de Minas, no período pré-eleitoral do ano passado, quando, num show dividido com o Legião Urbana, mostrou músicas como “Vote em Branco”. O vocal é o grande trunfo do Plebe Rude. O contraste entre a voz azeda do lead Ameba e o agudo das Plebetes , Ana e Marta, é explorado de uma forma super criativa. Absurdetes perdem! O som da banda é bem mais simples que o da Legião o e do Capital Inicial. Mas isso não é uma desvantagem. Torna sua música irresistível. É impossível ficar sem dançar. As letras são também inusitadas. Uma delas fala dos piratas do século XX, aqueles que andam com gravador e vídeo-cassete em punho. A única música de amor do grupo mistura declarações enamoradas com cenas de sexo e karatê . Uma versão de “God Save The Queen” louva nosso presidente e seus ministros. Mas o grande clássico o do grupo fica por conta de “Bandas BSB”, uma irônica a autocrítica da cena de rock brasiliense (“eles pensam que são tão originais/ imitando uma moda de fora”). Esta música termina com um atestado de óbito: “o rock já morreu, agora você já sabe/ não pode ser ressuscitado”.

Você deve estar perguntando o que é que essas bandas têm a ver com o punk. Nem os próprios componentes destes grupos sabem, ao certo. Perguntados se ainda a se consideram punks eles não respondem que sim, muito menos que não. O punk é uma grande influência, uma fonte inesgotável de idéias e, talvez, um passado, do qual se lembram com prazer. Os componentes do XXX (Alessandro, bateria; Bernardo Mueller, vocal; Geraldo, baixo; Jeová Stemller, guitarra) não têm motivos para tantas dúvidas. Somos uma banda punk sim, dizem, mas isso se você entender o punk como um estilo em constante evolução. O som produzido pelo XXX é, dentre os grupos de Brasília, é que mais se assemelha ao punk paulista ou carioca. Mas não se enganem pelas aparências. Entre os seu s grupos preferidos, eles citam de cara bandas como Xtc, Talking Heads e vários grupos de ska. As letras podem também lembrar o punk de São Paulo, mas refletem vivências completamente diferentes (“eu não agüento mais/ esta monotonia / o tédio está tomando conta / como uma epidemia”). O XXX foi o único grupo o brasiliense e a se apresentar na televisão local, num programa chamado Brasilia Urgente. As outras bandas já participaram de trilhas-sonoras de filmes e peças independentes, principalmente do cinema super-8 brasiliense. Desses filmes, o mais significativo é, sem dúvida, a Ascenção de Quatro Rudes Plebeus, produzido pelo Plebe Rude quando ainda não tinha o vocal feminino. O filme foi dirigido pelo baterista do Plebe, Gutje Woorthmann, e por Helena Resende (também vocalista free-lancer) e ganhou o prêmio principal do último festival de Super-8 do DF. A estória do filme, que dura 40 minutos, gira em torno de uma banda de rock que fica milionária, é roubada pelo empresário e termina como gari, levando um som com pás, enxadas e vassouras.

O rock nacional vive um momento de grande excitação. Brasília é apenas um dos focos desta agitação musical. Centenas de bandas, surgida s em todos os cantos do país, disputam avidamente um lugar ao sol. A imprensa, quem sou eu para analisar suas secretas razões, entrou com tudo na promoção do “novo fenômeno”. Já produziram até mesmo um verão do rock! Mas escutar o tão propagandeado som destes novos grupos é, com raríssimas e honrosas exceções, uma grande decepção . A música é velha , sem pique, uma sucessão interminável dos mais mamados clichês, dos mais repetidos chavões. No meio de um clima estéril como este é um alívio (e isso não é tietagem barata), escutar as bandas brasilienses. Chamá-las de punks, pós-punks, new wave, não me importa. Quem quiser que dê o nome, quem quiser que invente o rótulo. Brasília, famosa pelo tédio que acompanha seu cotidiano e pelas maquinações engenhosas do totalitarismo versão tupiniquim, produz uma música surpreendente. Guerrilha sonora no planalto central? Nada disso, Brasília ainda é o cenário ideal para a ficção científica: o cerrado contra-ataca.

Pra terminar: o Plebe Rude, o XXX e o Legião Urbana ensaiam numa mesma sala, alugada a Cr$ 2 mil cruzeiros por cabeça, de um edifício comercial de Brasília. É claro que só podem começar a tocar (o horário é dividido fraternalmente entre as bandas quando as “atividades normais” do edifício foram encerradas. O endereço da sala, para quem quiser entrar em contato com essa troupe incendiária (inclusive o Capital Inicial), é: Ed. Brasília Rádio Center, sala 2090, W-3 Norte (Setor de Radiodifusão Norte) Brasília, DF, CEP 70000.

Música Ouvida Pela Mente

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Não sei se isso é coisa de músico, mas acredito que todos já tenham tentado lembrar-se de uma música, do começo ao fim, sem sequer ouvi-la, naquele momento. Quando ouvimos alguma música, por várias vezes, a ponto de decorarmos todas as suas partes, fica fácil fazer isso.

Fica fácil, também, ouvi-la, mesmo que a qualidade sonora não esteja muito boa e compreensível. Daí, eu tiro o tema deste texto.

Quando conhecemos uma música que está tocando, mas a qualidade sonora não está muito boa (seja por interferências externas, má qualidade do áudio ou, simplesmente, volume baixo), ainda assim, conseguimos compreendê-la facilmente. Isso, porque aquela música está gravada em nossa mente. Ao mesmo tempo em que a ouvimos com os ouvidos, nossa mente entra em ação e começa a relembrar da música, como se tivéssemos dado o “play” em nossa mente. Sendo assim, mesmo com tais interferências sonoras, ainda conseguimos acompanhar a música. Nem precisamos prestar tanta atenção, para compreendê-la.

Foto Divulgação

Ao contrário, quando ouvimos uma música que ainda não a conhecíamos, precisamos dar total atenção, para podermos entendê-la. Se não conhecemos determinada música e estamos ouvindo pela primeira vez, temos que prestar atenção, para saber se ela agrada nosso gosto musical, depois precisamos ouvi-la atentamente, para entender a voz, a letra, os instrumentos… Se as mesmas interferências da situação anterior forem aplicadas a uma música desconhecida, não conseguiremos compreendê-la. Teremos que nos esforçar muito mais, para poder ouvi-la, pois ela não está gravada em nossa mente, portanto, não tem como darmos um “play” mental. Ela não está em nossa “playlist”.

Quando ouço uma música, pela primeira vez e é de meu agrado, prefiro ouvi-la sem interferências, em um ambiente mais tranquilo, para poder compreendê-la bem. Não acho uma boa, ouvir uma música, pela primeira vez, no som do carro, enquanto estou dirigindo. Por mais que eu esteja conseguindo ouvi-la muito bem, não dá para voltar toda a atenção para a música, então, se eu ouvir um álbum completo de uma banda ou um artista e esse álbum começar a tocar de novo, é bem provável que eu nem me lembre de ter ouvido a primeira música. Já, uma música que conheço, é detectada pela mente, que vai me dizer: “essa música já tocou!”, mesmo com a atenção voltada para a estrada.

Ouvir uma música exige atenção. Não ouvimos apenas com os ouvidos. Ouvimos, também, com a mente. Se a mente reconhecer a música, vai distinguir melhor, todas as partes da música; se a mente a desconhecer, vai precisar gravar a música, para então, passar a compreendê-la.

Então, a partir de agora, para apreciar mais suas músicas, escute-as com os ouvidos e ouça-as com a mente.

O dia 1º de maio poderá ser um marco na trajetória da banda brasiliense Massay.

massay show

Organizado pelos produtores do Porão do Rock, toda quarta-feira, no O’rilley Irish Pub, acontece o “Noite PDR” e ontem foi a vez da banda Massay.

Foto: Rui Rodrigues

Com casa cheia, a banda tocou com a alma, no palco do pub, levando o público ao delírio. Familiares, amigos, parceiros, fãs e, até mesmo, quem ainda não conhecia a banda, se surpreendeu com sua performance. A maturidade desses jovens demonstrou, nessa noite, que a estrada é longa, mas que estão no caminho certo.

Foto: Rui Rodrigues

 

A noite foi embalada pelos sucessos autorais da banda Massay, que também contou com participações especiais em covers, tais como Foo Fighters, AudioSlave, Rage Against The Machine e, é claro, Raimundos, que fez a galera sair do chão. A evolução da presença de palco e confiança no som fez o público pedir mais.

 

 

 

Foto: Rui Rodrigues

 

 

Esse show deixou claro que a banda Massay tem que fazer parte da próxima edição do Porão do Rock, o festival de rock mais importante da capital federal. E nós estaremos lá, para prestigiar mais uma grande conquista dessa galera que vem deixando sua marca no rock brasiliense.

 

 

 

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