Servidora do DF compartilha Natal com jovem que morava em abrigo

Desde 2008, a servidora pública Andrea Porto, 30 anos, moradora de Brasília, compartilha a noite de Natal com a jovem Ana Paula Silva, hoje com 19 anos. Ana Paula viveu em um abrigo do Distrito Federal dos 14 aos 18 anos. Agora, ela mora provisoriamente com uma mãe social, como são chamadas as cuidadoras de entidades de acolhimento.
Andrea conheceu Ana Paula por meio do projeto de apadrinhamento afetivo, promovido por uma organização não governamental. A proposta da ONG é estabelecer um relacionamento entre padrinho e a criança ou adolescente que vive em abrigo sem que seja necessário realizar a adoção.
Embora o apadrinhamento afetivo não trate de um vínculo apenas no Natal, a servidora pública destaca o significado da data.

“No Natal, fica mais reforçado o abandono deles [crianças e adolescentes que vivem em abrigos]. Até uma semana antes, muita gente leva brinquedo, leva presente. Tem um pouco do desencargo de consciência, de fazer uma boa ação. Mas na noite de Natal mesmo, não. Uma boa parte passa com uma mãe social, uma pessoa que ajuda, mas sempre tem o que não tem ninguém”, diz Andrea.
O primeiro Natal em comum das duas juntas foi marcado por surpresas, conta a madrinha afetiva. “O primeiro foi o mais marcante. Tudo para ela era novidade, ela ficou deslumbrada com o Papai Noel, mesmo sem já acreditar mais na história do bom velhinho.”

Ana Paula estava recém-chegada no abrigo. Em meados de 2008, ela foi para a instituição, depois que uma professora desconfiou que a menina era vítima de maus-tratos. O que a polícia descobriu foi que a garota, nascida no interior de Pernambuco, havia sido dada pela mãe para uma família em Brasília, onde era tratada como empregada e sofria constantes agressões.
Foi Ana Paula que escolheu Andrea como madrinha durante o treinamento do projeto de apadrinhamento afetivo. “Eu pensava que, talvez, não conseguisse mudar a vida dela, o futuro, mas eu queria proporcionar momentos felizes, para que, quando ela fosse se lembrar da vida dela, tivesse bons momentos na memória, de alguém que cuidava dela, que gostava dela.”
No quinto ano de Natal juntas, Ana Paula já sabe que vai encontrar mesa farta, 30 a 40 familiares de Andrea, troca de presentes. O mais importante nessa experiência, porém, é constatar que tem alguém que é permanente na vida dela. “A Andrea não está comigo só no Natal, ela é a pessoa mais importante da minha vida. Conto com ela no meu dia a dia. E sei que vamos passar várias datas importantes juntas”, diz a jovem.
O sentimento da servidora pública não é diferente. “Meu Natal não tem mais sentido sem ela. Ela acaba sendo o personagem principal do meu Natal. Faço o que posso para surpreendê-la.”
Adoção
O início da relação entre a servidora pública e a jovem que vivia no abrigo foi marcada pela expectativa de adoção.
“Às vezes, ela pediu para eu adotá-la, pedia para morar aqui em casa. Acho que tinha medo de eu não ir vê-la no fim de semana, de perder o contato. Com o decorrer do tempo, tudo foi se acalmando. Ela entendeu que não tenho como adotá-la por causa da pouca diferença de idade, da dificuldade de eu não ter a minha família e morar com meus pais”, relata Andrea.
A madrinha afetiva faz um alerta para as responsabilidades de se aproximar de uma criança ou adolescente que vive em abrigo. “Quando me falam que vão fazer essa adoção afetiva, eu insisto que é preciso ter muita vontade, porque, deixar de lado depois prejudica muito a criança. É preciso estar propenso a se dedicar àquilo, tem que ter certeza.”
Apesar da responsabilidade, Andrea Porto afirma que ganhou muito com a relação com a afilhada afetiva. “Eu nunca esperei nada em troca da relação com a Ana Paula. Só queria oferecer. Ela pode fazer birra, pode não me ligar, mas eu quero dar uma vida melhor para ela. E isso é o ideal de uma relação, você não esperar muito em troca e dar o seu melhor. Por isso, talvez, tenha dado tão certo.”

Fonte: G1

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